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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Sucessos de 1915: Ai, Filomena

Hermes da Fonseca
Em 1915, com o fim do mandato de Hermes da Fonseca, apelidado pelo povo de seu Dudu, surgem sátiras à sua fama de agourento. A que se tornou mais famosa é Ai, Filomena, de José Carvalho de Bulhões: "Dudu sai a cavalo/ o cavalo logo empaca/ e só começa a andar/ ao ouvir o corta-jaca.// Ai, Filomena, se eu fosse como tu,/ tirava a urucubaca/ da careca do Dudu".

O texto faz referência a um sarau no Catete, em 1914, quando a primeira-dama Nair de Tefé tocou ao violão o Corta-jaca, maxixe de Chiquinha Gonzaga, causando grande escândalo. O episódio levou Rui Barbosa a ocupar a tribuna do Senado para classificar esse gênero de ritmo como "a mais vulgar e grosseira de nossas manifestações musicais".

Ai, Filomena (marcha, 1915) - J. Carvalho Bulhões - Interpretação: Bahiano

Disco selo (76 rpm, 27"): Odeon Record / Título da música: Ai!.. Philomena / J. Carvalho Bulhões (Compositor) / Bahiano (Intérprete) / Conjunto (Acomp.) / Nº Álbum: 120988 / Lançamento: 1915 / Gênero musical: Canção / Coleção de Origem: IMS, Nirez



Ai, minha sogra / Morreu em Caxambu / Com a tal urucubaca / Que lhe deu o seu Dudu // Ai, Filomena / Se eu fosse como tu / Tirava a urucubaca / Da careca do Dudu

Dudu quando casou / Quase que levou a breca / Por causa da urucubaca / Que ele tinha na careca // Ai, Filomena / Se eu fosse como tu / Tirava a urucubaca / Da cabeça do Dudu

Na careca do Dudu / Já trepou uma macaca / E por isso coitadinho / É que tem urucubaca // Ai, Filomena / Se eu fosse como tu / Tirava a urucubaca / Da careca do Dudu

Dudu tem uma casa / E com chave de ouro / Quem lhe deu foi o Conde / Com os cobres do Tesouro // Ai, Filomena / Se eu fosse como tu / Tirava a urucubaca / Da careca do Dudu

Se o Dudu sai a cavalo / O cavalo logo empaca / Só começa a andar / Ao ouvir o Corta-jaca // Ai, Filomena / Se eu fosse como tu / Tirava a urucubaca / Da careca do Dudu

Dudu tem uma casa / Que nada lhe custou / Porque nesse presente / Foi o povo que marchou // Ai, Filomena / Se eu fosse como tu / Tirava a urucubaca / Da careca do Dudu

Mas a rainha / Cavou o seu também / Dizendo no Senado / Tão somente "muito bem" // Ai, Filomena / Se eu fosse como tu / Tirava a urucubaca / Da careca do Dudu

Eu me arrependo / De ter ido ao Caju / E não ter vaiado / A saída do Dudu // Ai, Filomena / Se eu fosse como tu / Tirava a urucubaca / Da careca do Dudu

Bahiano: -Vocês estão falando, ele nem faz caso. Está comendo do bom e do melhor!



Fonte: Portal SESCSP - A MPB canta e conta nossa história

Sucessos de 1913: Caboca de Caxangá

Catulo da Paixão Cearense: Um sertanejo do Sertão

Em entrevista a Joel Silveira, nos idos de 1940, Catulo da Paixão Cearense declarou-se "um sertanejo do sertão", ressaltando o mérito de saber descrevê-lo muito bem, apesar de não conhecê-lo. Parte desse mérito ele deveria creditar ao violonista João Pernambuco (João Teixeira Guimarães), com quem conviveu por diversos anos e que lhe forneceu, além de alguns temas musicais, um variado vocabulário sertanejo que usaria em seus versos. Um exemplo dessa colaboração é a composição "Caboca de Caxangá", que entrou para a história assinada apenas pelo poeta.

Inspirado numa toada que João lhe mostrara e que teria melodia do violonista, composta sobre versos populares, Catulo escreveu extensa letra, impregnada de nomes de árvores (taquara, oiticica, imbiruçu...), animais (urutau, coivara, jaçanã...), localidades (Jatobá, Cariri, Caxangá, Jaboatão...) e gírias do sertão nordestino, daí nascendo em 1913 a embolada Caboca de Caxangá, classificada no disco como batuque sertanejo. E nasceu para o sucesso, que se estenderia ao carnaval de 1914, para desgosto de Catulo, que achava depreciativo o uso da composição pelos foliões.

A seguir algumas gravações da melodia acima:

Cabocla de Caxangá (batuque, 1913) - Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco - Intérpretes: Júlia Martins, Eduardo das Neves e Bahiano

Disco selo: Odeon Record / Título da música: Cabocla de Caxangá / Catulo da Paixão Cearense (Compositor) / João Pernambuco (Compositor) / Eduardo das Neves (Intérprete) / Bahiano (Intérprete) / Júlia Martins (Intérprete) / Grupo da Casa Edison (Acomp.) / Nº do Álbum: 120521 / Nº da Matriz: 120521 / Gravação: 2/Janeiro/1913 / Lançamento: 1913 / Gênero musical: Batuque Sertanejo / Coleção de Origem: IMS, Nirez



Interpretação de Paulo Tapajós em 1972:

LP No Tempo Dos Bons Tempos - Luar Do Sertão - Músicas de Catullo e Joubert / Título da música: Cabocla de Caxangá / João Pernambuco (Compositor) / Catulo da Paixão Cearense / Paulo Tapajós (Intérprete) / Gravadora: Fontana/Philips / Álbum: 6488 014 / Ano: 1972 / Tracklist: A6 / Gênero musical: Embolada / Batuque sertanejo / Obs.: Extraidos dos LPs de 10 polegadas gravados na Sinter em 1956: SLP 1052 e SLP 1082



E------------------- C7------------------ Fm
Laurindo Punga, Chico Dunga, Zé Vicente
-------------------------B7----------------------E
E esta gente tão valente / Do sertão de Jatobá,
-----------------------C7----------- Fm
E o danado do afamado Zeca Lima,
--------------------------B7-------------------------E
Tudo chora numa prima, / E tudo quer te traquejá.

---------------------B7------------------------E
Caboca di Caxangá, / Minha caboca, vem cá.

------------E---------- C7-------------- Fm
Queria ver se essa gente também sente
-----------------------------B7
Tanto amor, como eu senti,
----------------------------E
Quando eu te vi em Cariri!
-----------------------C7----------- Fm
Atravessava um regato no quartau
-----------------------B7------------------------- E
E escutava lá no mato / O canto triste do urutau.

------------------------B7---------------------------E
Caboca, demônio mau, / Sou triste como o urutau!

E------------------- C7---------------------- Fm
Há muito tempo, lá nas moita das taquara,
-----------------------------B7--------------------------E
Junto ao monte das coivara, / Eu não te vejo tu passá!
------------------C7-------------- Fm
Todo os dia, inté a boca da noite,
------------------------B7----------------------E
Eu te canto uma toada / Lá debaixo do indaiá.

-------------------------B7----------------------E
Vem cá, caboca, vem cá, / Rainha di Caxangá.

E------------------ C7------------------ Fm
Na noite santa do Natal na encruzilhada,
--------------------------B7--------------------------E
Eu te esperei e descantei / Inté o romper da manhã!
--------------------------C7------------ Fm
Quando eu saía do arraiá, o sol nascia
-------------------------B7-------------------E
E lá na grota já se ouvia / Pipiando a jaçanã.

------------------------B7--------------------------E
Caboca, flor da manhã / Sou triste como a acauã!


Fontes: A Canção no Tempo – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Volume 1 - Editora 34; Álbum: Luar do Sertão - Músicas de Catullo e Joubert (1972).

Sucessos de 1913: Lágrimas e Risos

Bahiano (Manuel Pedro dos Santos, 1887-1944) 

Lágrimas e risos (valsa, 1913) - Eustórgio Wanderley e Adelmar Tavares - Interpretação: Bahiano

Disco selo: Odeon Record / Título da música: Lágrimas e risos / Adelmar Tavares (Compositor) / Eustórgio Vanderley (Compositor) / Bahiano (Intérprete) / Violão (Acomp.) / Nº do Álbum: 120271 / Nº da Matriz: 120271-2 / Gravação: 22/Setembro/1911 / Lançamento: 1913 / Gênero musical: Valsa / Coleção de Origem: IMS



A vida é toda feita assim
De riso e dor um mar sem fim
Alegre um dia o riso vem
E o pranto seguirá também

A criancinha assim que nasce
Conhece a dor, põe-se a chorar
No entanto o riso em sua face
Só muito após vem a aflorar

Sorrir, chorar e assim vai-se a vida a passar
Cantar, gemer, a mágoa vem junto ao prazer
É louco também quem nos diz, que se considera feliz
Que a sorte aos seus braços lhe atira, mentira, mentira
Pois breve ao invés de cantar
Chorar, chorar

Eu que cantando estou hoje aqui
Enquanto o público sorri
Quem sabe se em vez de cantar
Tenho vontade de chorar

Num circo, vê-se sobre a arena
Ri o palhaço a se perder
E em casa a filha assim pequena
Talvez deixasse-lhe a morrer

Sorrir, chorar e assim vai-se a vida a passar
Cantar, gemer, a mágoa vem junto ao prazer
Palhaço que ri sem cessar
Não deve não pode chorar
Pois quem é pago pra rir pra chalaça
Desgraça, desgraça
Se em pranto tens alma de par
Sorrir, cantar




Sucessos de 1914: São Paulo Futuro

Marcelo Tupinambá (Fernando Álvares Lobo - 29/5/1889 Tietê, SP - 4/7/1953 São Paulo, SP) musicou, em 1914, a revista musical "São Paulo Futuro", de Danton Vampré, que estreou no Teatro São José, em São Paulo. Em 1915 a canção "São Paulo futuro" foi gravada na Odeon pelo cantor Bahiano. Em 1917, musicou a revista "Cenas da roça", escrita por Arlindo Leal (José Eloy).

São Paulo Futuro (Maxixe Curtindo) (maxixe, 1914) - Marcelo Tupinambá - Intérprete: Bahiano

Disco selo: Odeon Record / Título da música: São Paulo Futuro (Revista) - Maxixe "Cortindo" / Marcelo Tupynambá (Compositor) / Bahiano (Intérprete) / Orquestra (Acomp.) / Nº do Álbum: 120986 / Nº da Matriz: R-16 / Lançamento: 1915 / Gênero musical: Maxixe / Coleção de Origem: IMS, Nirez



Interpretação do cantor Roberto Fioravanti em 1968

LP Mensagem De Saudade (Vinyl) / Título da música: São Paulo Futuro / Marcelo Tupinanmbá (Compositor) / Roberto Fioravanti (Intérprete) / Gravadora: Chantecler / Álbum: CMG 2425 / Ano: 1968 / Gênero musical: Maxixe


Vem morena / pro teu furrié / tu não tens penado teu Mané.
Eu te espero / gemendo de dô / e desespero sem o teu amô

Ai, vem meu bem, / tu já deu teu coração...
Ai, tu não vem, / pois eu morro de paixão. (bis)

Vem marvada / este pranto secá / nas labaredas do teu olhar
Tu parece não ter coração / porque tu some, faz ingratidão.

Ai, vem meu bem...

Eu te imploro / pela última vez: /
Fica lá em casa / somente um mês, /
E depois que esse amô / tu prová /
Tu nunca mais há / de me abandoná.

Ai, vem meu bem...



Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB; Instituto Moreira Salles; Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB).