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domingo, 9 de outubro de 2022

Gal Costa: Divino Maravilhoso


Caetano Veloso e Gilberto Gil, pela primeira vez em um festival, formaram uma parceria, e com a mudança de nome da “Gracinha”, a Maria da Graça, para Gal Costa, diziam que tudo era perigoso no seu "Divino Maravilhoso". Foto: Gal Costa defendendo "Divino Maravilhoso" no Festival de 1968.

Divino maravilhoso (1968) - Caetano Veloso e Gilberto Gil - Interpretação: Gal Costa

LP Gal Costa / Título da música: Divino Maravilhoso / Caetano Veloso (Compositor) / Gilberto Gil (Compositor) / Gal Costa (Intérprete) / Gravadora: Philips / Nº Álbum: R 765.068 L / Ano: 1969 / Lado B / Faixa 2 / Gênero musical: MPB.


A      C#
Atenção ao dobrar uma esquina
 A             C#
Uma alegria, atenção menina
 D          E
Você vem, quantos anos você tem?
 A         C#
Atenção, precisa ter olhos firmes
 D              E
Pra este sol, para esta escuridão
 A
Atenção
G#m7(b5)     C#7
Tudo é perigoso
F#m                D G
Tudo é divino maravilhoso
A    D     C#7(b9) F#m
Atenção para o refrão
A                 Em
É preciso estar atento e forte
     A                Em
Não temos tempo de temer a morte (2x)
 A       C#
Atenção para a estrofe e pro refrão
 A            C#
Pro palavrão, para a palavra de ordem
  D       E
Atenção para o samba exaltação
A
Atenção
G#m7(b5)     C#7
Tudo é perigoso
F#m                D G
Tudo é divino maravilhoso
A    D     C#7(b9) F#m
Atenção para o refrão
A                 Em
É preciso estar atento e forte
     A                Em
Não temos tempo de temer a morte (2x)
 A       C#
Atenção para as janelas no alto
 A      C#
Atenção ao pisar o asfalto, o mangue
 D       E
Atenção para o sangue sobre o chão
A
Atenção
G#m7(b5)     C#7
Tudo é perigoso
F#m                D G
Tudo é divino maravilhoso
A    D     C#7(b9) F#m
Atenção para o refrão
A                 Em
É preciso estar atento e forte
     A                Em
Não temos tempo de temer a morte (2x)

Caetano Veloso: Alegria, Alegria

Caetano interpretando Alegria, Alegria, no Festival da MPB de 1967

Composta num estilo cinematográfíco-descritivo, “Alegria, Alegria” focaliza a caminhada de um transeunte pelas ruas de uma grande cidade. Aliás, a idéia da canção surgiu na rua, mais precisamente durante um passeio de Caetano Veloso pelas ruas de Copacabana. Só que na composição, o passeio e a postura do passeante têm sentido metafórico, o que torna “Alegria, Alegria” uma espécie de manifesto precursor do movimento tropicalista.

Em sua caminhada vadia (“Por entre fotos e nomes / os olhos cheios de cores”), desprezando signos e convenções (“Sem lenço, sem documento”), ele deseja somente viver a aventura da liberdade sem limites (“Nada no bolso ou nas mãos /eu quero seguir vivendo / amor/eu vou / por que não? por que não?”).

Além de projetá-lo nacionalmente, a composição aproximou Caetano das vanguardas concretistas — atraindo-lhe as bênçãos de Augusto de Campos e Gilberto Mendes, entre outros e do universo do rock, a partir do momento em que ele chamou os Beat Boys para acompanhá-lo na apresentação e gravação da música.

Foi assim, sustentada pelo som eletrificado deste conjunto de iê-iê-iê, constituído por músicos argentinos, que “Alegria, Alegria”, uma marcha de melodia muito simples, sobre acordes perfeitos sem acidentes e antecedida por uma introdução elementar, classificou-se em quarto lugar no III Festival de MPB da TV Record, para a irritação dos puristas (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Alegria, Alegria (1967) - Caetano Veloso - Intérprete: Caetano Veloso

LP Caetano Veloso / Título da música: Alegria, Alegria / Caetano Veloso (Compositor) / Caetano Velo (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1968 / Álbum: R 765.026 L / Lado A / Faixa 4 / Gênero musical: Marcha:

Intro.: ( D G B7 )2x E

                     A                B7      E
Caminhando contra o vento, sem lenço sem documento
                   A          D  B7
No sol de quase dezembro, eu vou
E                     A           B7          E
O sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas
                 A         D  B7
Em Cardinales bonitas, eu vou
E        A  B7  A E
Em caras de presidentes
           A  B7   A   E
Em grandes beijos de amor
            A  B7   A  E
Em dentes, pernas, bandeira
            A B7  A  C#m
Bomba e Brigitte Bardot

                 F#    C#m
O sol nas bancas de revista
                 F#      C#m
Me enche de alegria e preguiça
                 D 
Quem lê tanta notícia
   A                      D
Eu vou, por entre fotos e nomes
         E7        A
Os olhos cheios de cores
                   D     B7
O peito cheio de amores vãos
    E            A            E
Eu vou, por que não, por que não

                  A                 B7           E
Ela pensa em casamento, e eu nunca mais fui à escola
                    A         D  B7
Sem lenço, sem documento, eu vou
E                 A                B7      E
Eu tomo uma coca-cola, e ela pensa em casamento
                  A        D  B7
Uma canção me consola, eu vou
E          A  B7  A  E
Por entre fo--tos e nomes
            A B7  A   E
Sem  livros e sem fuzil
           A  B7  A   E
Sem fome, sem te--le--fone
        A  B7 A  C#m
No coração do Brasil

              F#    C#m
Ela nem sabe até pensei
               F#   C#m
Em cantar na televisão
               D 
O sol é tão bonito
   A                       D
Eu vou, sem lenço, sem documento
         E7            A
Nada no bolso ou nas mãos
                   D      B7
Eu quero seguir vivendo, amor
    E
Eu vou
         A            E
Por que não, por que não
         A            E
Por que não, por que não
         A            E
Por que não, por que não

sábado, 8 de outubro de 2022

Edu Lobo e Marília Medalha: Ponteio

Marília Medalha e Edu Lobo no III Festival de MPB - 1967
Recém-chegado de uma viagem à Europa, Edu Lobo não se sentia inclinado a participar do III Festival de MPB da TV Record, apesar da insistência de Dori Caymmi, que lhe pedia uma letra para a canção que deveria inscrever. De qualquer forma, procurando atender o amigo, começou a pensar no assunto e até encontrou um mote, que lhe pareceu de forte apelo popular: “Ai, quem me dera agora /eu tivesse a viola pra cantar.”

A parceria entretanto gorou, pois Dori optou por Nelson Mota, com quem ganhara o festival da TV Rio com “Saveiros”, e que acabou fazendo os versos da canção, “O Cantador”, defendida no festival por Elis Regina. Mas o mote permaneceu e, desenvolvido por Edu, originou outra composição, que ele entregaria a Capinan para letrar, aproveitando uma idéia que anotara num caderno de projetos: “Ponteio”.

Já então decidido a participar do festival da Record, o compositor convidou o amigo de infância Téo de Barros e o Quarteto Novo (Hermeto Pascoal, Heraldo Monte, Airto Moreira e Téo) para ensaiarem e participarem do arranjo de “Ponteio”. Chamou ainda o conjunto Momento Quatro e uma amiga do Teatro e Arena, a cantora Marília Medalha, cuja apresentação cênica teve a orientação de Augusto Boal. Após a introdução, com a flauta de Hermeto, a extensa letra da canção, entremeada por repetições do mote original, é entoada em diferentes climas e num crescendo intenso, que culmina no final triunfante.

Assim “Ponteio” venceu um dos mais disputados festivais de todos os tempos, sobrepujando com os aplausos do público a “Domingo no Parque”, “Roda Viva”, “Alegria, Alegria” e até “O Cantador”, a preferida de Edu. Do ponto de vista rítmico, a vencedora inovou com um ponteado no desenho dos baixos (colcheia-semicolcheia-colcheia-colcheia), dando a sensação de um baião mais sincopado do que o típico baião de Luiz Gonzaga.

Esta levada seria aproveitada por Edu em outras composições como “Casa Forte”, “Zanzibar” e “Currupião”, tornando-se ainda modelo de um baião de andamento mais veloz, muito utilizado em temas instrumentais por outros compositores. Posteriormente, ele constatou que esse desenho rítmico já existia em peças de Heitor Villa-Lobos. “Ponteio” tem gravações memoráveis como as de Radamés Gnattali, Sivuca, Zimbo Trio e, no exterior, a da big-band de Woody Herman (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Ponteio (1967) - Edu Lobo e Capinan - Interpretação: Edu Lobo, Marília Medalha e Momento Quatro

Compacto simples / Título da música: Ponteio / Edu Lobo (Compositor) / Capinan (Compositor) / Edu Lobo (Intérprete) / Marília Medalha (Intérprete) / Momento Quatro (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1967 / Nº Álbum: 365.221 PB / Lado A / Gênero musical: Canção / Baião / MPB.

Fm                                            
Era um, era dois, era cem, era o mundo chegando e ninguém, 
          F#
  que soubesse que sou violeiro,
                            Fm       
Que me desse um amor ou dinheiro. 
                                             F#
Era um, era dois, era cem, vieram prá me perguntar:
                                  
Ô voce, de onde vai, de onde vem, 
                            A#m7
     diga logo o que tem prá contar
                                           C#7+
Parado no meio do mundo, senti chegar meu momento
                     A#m7                             Gm  C
Olhei pro mundo e nem via, nem sombra, nem sol, nem vento
F             D#                 F           D#
Quem me dera agora eu tivesse a viola prá cantar, ponteio
F            D#                  F           D#
Quem me dera agora eu tivesse a viola prá cantar, ponteio
F             D#                 F          D#
Quem me dera agora eu tivesse a viola prá cantar, ponteio
F             D#                   F         D#     Fm  F#
Quem me dera agora, eu tivesse a viola prá cantar, prá cantar
Fm                                 
Era um dia, era claro, quase meio, 
                                F#
     era um canto calado, sem ponteio
                                                         Fm
Violência, viola, violeiro, era morte em redor, mundo inteiro
                                                             F#
Era um dia, era claro, quase meio, tinha um que jurou me quebrar
                                                       A#m7
Mas não lembro de dor nem receio, só sabia das ondas do mar
                                                C#7+
Jogaram a viola no mundo, mas fui lá no fundo buscar
                      A#m7                          Gm  C
Se eu tomo e viola, ponteio, meu canto não posso parar, não
F             D#                  F            D#
Quem me dera agora, eu tivesse a viola prá cantar, ponteio
F             D#                  F             D#
Quem me dera agora, eu tivesse a viola prá cantar, ponteio
F              D#                  F            D#    
Quem me dera agora, eu tivesse a viola prá cantar, 
  ponteio, ponteio, todo mundo pontear
F              D#                 F         D#      Fm   F#
Quem me dera agora, eu tivesse a viola prá cantar, pontear
Fm                                                      F#
Era um, era dois, era cem, era um dia, era claro, quase meio
                                                    Fm
Encerrar meu cantar já convém, prometendo um novo ponteio

                                                     F#
Certo dia que sei por inteiro, eu espero, não vai demorar
                                                       A#m7
Esse dia estou certo que vem, diga logo que vim prá buscar
                                                 C#7+
Correndo no meio do mundo, não deixo a viola de lado,
                 A#m7                       Gm  C
Vou ver o tempo mudado, e um novo lugar prá cantar
F             D#
Quem me dera agora,.........

Elis Regina: Canto Triste


Canto Triste (1966) - Edu Lobo e Vinícius de Moraes - Interpretação: Elis Regina

Compacto duplo Elis E Os Festivais (7', EP, vinil) / Título da música: Canto Triste / Edu Lobo (Compositor) / Vinícius de Moraes (Compositor) / Elis Regina (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1966 / Nº Álbum: 441.403 PT / Lado B / Faixa 2 / Gênero musical: Canção / Festivais da MPB.


Intro: 
Dm Dm/C Gm C7/4 C F7+ A#7+
Eº Bm5-/7 A#7+ Em A7/12+

Dm             Dm/C       Gm              A7/12+
Porque sempre foste a primavera em minha vida
 F
Volta pra mim
  Gm        C7/9-          F#m7
Desponta novamente no meu canto
B7/9      B7/9- A7/11/2-b A7    Dm
Eu te amo tanto mais, te quero tanto mais
       A7/11/2-b     A7/12+ A7
Há quanto tempo faz partiste
Dm      Cm/C           Gm           A7/12+
Como a primavera que também te viu partir
F              Dm
Sem um adeus sequer
   Gm          G7/9-         F#m7
E nada existe mais em minha vida
B7/9    A7/11/2-b     A7       Dm
Como um carinho teu, como um silêncio teu
Dm/C       A7/11/2-b       A7
Lembro um sorriso teu tão triste
D7             Gm        C       F7+
Ah, Lua sem compaixão, sempre a vagar no céu
  A#7+   A7/11/2-b         Bm5-/7
Onde se esconde a minha bem-amada
               A#7+
Onde a minha namorada
 A7/12+
Vai e diz a ela as minhas penas e que eu peço
        D
Peço apenas
          Dm/C             Gm       A7/12+
Que ela lembre as nossas horas de poesia
       F
Das noites de paixão
   Gm          C7/9-            F#m
E diz-lhe da saudade em que me viste
B7   B7/9- A7/11/2-b A7  Dm7
Que estou sozinho e só existe
             Gm  A7/12+
Meu canto triste
      D7+
Na solidão

Elis Regina: Arrastão


Surgindo no momento em que o pessoal da bossa nova começava a tomar outros rumos, Edu Lobo escolheu um caminho realista, que misturava protesto social e regionalismo. Era uma linha de certa forma influenciada pelo trabalho de Carlos Lyra no Centro Popular de Cultura da UNE, e que introduzia na moderna canção brasileira asperezas da música nordestina.

Requintado em sua simplicidade aparente, o vibrante “Arrastão” pertence à leva inicial das composições de Edu, tendo se sagrado vencedor do 1º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, que projetou seu nome e o de Elis Regina.

Curiosamente, a ideia da melodia nasceu numa reunião na casa dos Caymmi, quando era cantada a “História de Pescadores”, do anfitrião. Na terceira parte, intitulada “Temporal” (“Pedro! / Chico! / Lino! / Zeca!...”), Edu começou a improvisar um contracanto, que acabou se tornando a base da canção.

Já a letra, de Vinicius, temperada pelo misticismo que dominava sua produção no momento, focaliza uma cena de pescaria, finalizada com uma puxada de rede repleta de peixes: “Ê... tem jangada no mar / ê, iê, ê / hoje tem arrastão / ê, todo mundo pescar / (...) / nunca jamais se viu tanto peixe assim...”

“Arrastão” funcionou como uma espécie de divisor de águas entre a bossa nova e um tipo de música inicialmente chamada de “música popular moderna”, ou MPM. Esta sigla depois seria impropriamente trocada por MPB, mas MPB sempre foi e continuaria sendo usada como designativa de música popular brasileira, não importando se moderna ou antiga (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Arrastão (canção, 1965) - Edu Lobo e Vinícius de Moraes - Interpretação de Elis Regina.

LP/CD 2 Na Bossa - Elis Regina e Jair Rodrigues / Título da música: Arrastão / Edu Lobo (Compositor) / Vinicius de Moraes (Compositor) / Elis Regina (Intérprete) / Jongo Trio (Acomp.) / Gravadora: Philips / Ano: 1965 / Álbum: P-632.765-L / Faixa 5 / Gênero musical: Canção.

Tom: Am9

Am9                D7/9
Ê, tem jangada no mar
Am9                   D7/9
Ê, ê, ê, hoje tem arrastão
Bm7               E7
Ê, todo mundo pescar
C7M                 D7/9
Chega de sombra, João

G7M
Jovi
F7M                                   G7M
Olha o arrastão entrando no mar sem fim
F7M                                G7M
É, meu irmão, me traz Iemanjá prá mim

C7            Dm       D/C
Minha Santa Bárbara
G/B
Me abençoai
Gm/Bb      Dm/A   Dm/F    Gm7
Quero me casar    com Janaína

Am9              D7/9
Ê, puxa bem devagar
Am9                        D7/9
Ê, ê, ê, já vem vindo o arrastão
Bm7              E7
Ê, é a rainha do mar
C7M                 D7/9
Vem, vem na rede João
G7M
Prá mim
F7M                                G7M
Valha-me meu Nosso Senhor do Bonfim
F7M                               G7M
Nunca jamais se viu tanto peixe assim

domingo, 2 de outubro de 2022

Os Centauros

Caetano Veloso no Festival Internacional da Canção - São Paulo - 1968

Fala-se em "Poder Jovem", na "Jovem Revolução" e um padre de passeata, em seu veemente sermão, chamou Nossa Senhora de "a mãe do Jovem Salvador". Vejam: — é tão importante ser jovem que já se providenciou uma idade promocional para Jesus. Há também os que proclamam a razão da idade. Nada tenho a objetar. Que seja dado o poder aos jovens, e que eles o exerçam, e que façam o mundo à sua imagem e semelhança.

A meu ver, porém, chegou a hora de se falar também da "jovem obtusidade". Que ela existe como uma realidade concreta, que se pode apalpar, farejar, não há dúvida. Basta olhar e faremos a singela, a tranqüila constatação visual. Se me pedirem fatos, eu direi: — "Vamos aos fatos".

Sábado, fiquei em casa. Fazia um frio cadavérico. Tenho um amigo que se refere ao frio em termos de "julgamento moral". Quando a aragem vai gelando os edifícios e as esquinas, ele põe-se a esbravejar:

— "Ah, frio canalha! Ah, frio indecente!".

Para a sua indignação, o frio era "torpe", era "obsceno", era "sórdido".

Sábado, tive também vontade de xingar o frio dessa forma direta, pessoal e crudelíssima. Fiquei vendo televisão, com três suéteres. Ia passar o teipe do Festival da Canção. Não sei se não teria preferido um bangue-bangue.

Mas, vamos lá. Começa o festival com uma panorâmica da platéia. Verificou-se, ao primeiro olhar, que todo mundo lá era jovem. Só rapazes, só mocinhas. É apavorante. No passado ocorria o inverso: — o Brasil era uma paisagem de velhos. Nos bondes, só os velhos vinham sentados; os jovens ficavam de fora, pendurados no balaústre. E as senhoras grávidas pediam para o filho já nascer setuagenário e de guarda-chuva, como o personagem de Gogol.

Hoje, o velho tem vergonha de o ser. O padre de passeata precisa fazer uma plástica em Jesus e remoçá-lo (talvez assim o Salvador se salve, sobreviva etc. etc.). Mas, como ia dizendo: — não havia na platéia um sujeito de meia-idade, uma viúva, ou, como quer a gíria perversa, um coroa. Uma platéia sem coroa e ocupada por uma mocidade ululante e salubérrima. Imaginei que estaria, ali, a melhor juventude paulista.

E era de um óbvio escandaloso a politização dos presentes. Sempre que uma letra fazia uma insinuação política, ou tinha um arroubo ideológico, ou rosnava para os Estados Unidos — a audiência vinha abaixo. Que pasionarias eram as meninas! Lembro-me de uma que assim se manifestava: — tirando os sapatos e batendo com os saltos, um no outro. Ninguém sabia se estava aplaudindo ou vaiando.

Ah, os rapazes, os rapazes! Cavalgavam as cadeiras e atiravam patadas como rútilos centauros.

Mas todas essas impressões paisagísticas são secundárias, irrelevantes. De um altíssimo patético foi a aparição do sr. Caetano Veloso. Ah, esquecia-me de Vandré. Seus versos tinham o seguinte título, de uma malícia ou, melhor dizendo, de uma ironia finíssima: — "Pra não dizer que não falei de flores". E, realmente, para nosso pasmo, ele faz um artigo de fundo contra as flores. Até hoje ainda não sei o que é que o nosso libertário propõe.

Vejamos algumas hipóteses: — quererá ele dizer que a "Grande Revolução" vai acabar com as flores? Ou que só a burguesia mais reacionária aprecia as rosas e, por carambola, a beleza? E que o revolucionário é tão obtuso, tão bestial, tão abjeto que não pode ver uma flor sem chutá-la?

Sim, há várias metáforas no editorial do Vandré e todas absolutamente inescrutáveis. Só uma coisa é certa: — sem que o próprio autor o perceba, tais metáforas são absolutamente contra-revolucionárias.

Mas vejamos o sr. Caetano Veloso. A vaia selvagem com que o receberam já me deu uma certa náusea de ser brasileiro. Dirão os idiotas da objetividade que ele estava de salto alto, plumas, peruca, batom etc. etc. Era um artista. De peruca ou não, era um artista. De plumas, mas artista. De salto alto, mas artista. E foi uma monstruosa vaia.

A menina, já citada, batia com os saltos dos sapatos, em delírio. Mas era um concorrente que vinha, ali, cantar; simplesmente cantar.

Mas os jovens centauros não deixaram. Na minha casa, lembrei-me de uma velha solenidade nazista: — a queima de livros. Imaginei que, a qualquer momento, a guarda vermelha ia subir ao palco para queimar o próprio Caetano Veloso. Não me admiraria nada que, no futuro, os nossos jovens socialistas queimem poetas no meio da rua.

Mas estou aqui fazendo uma defesa inútil de Caetano Veloso. Ninguém reage melhor do que ele mesmo. Quis cantar e esmagaram seu canto. A massa coral repetia, em furiosa cadência, uma obscenidade espantosa. Era o massacre de um artista, um desesperado artista que se propunha a cantar o "É proibido proibir".

A canção era a flor que o nosso Vandré quer expulsar do seu horrendo paraíso socialista. Já nenhum telespectador suportava mais a humilhação, que se transferia para as casas. (E a jovem massa insistia no refrão torpe).

Súbito, os brios de Caetano Veloso se eriçaram mais que as cerdas bravas do javali. Ele começou a falar. Era um contra 1500. E um que dizia a sua feroz mensagem nos trajes mais impróprios para o seu rompante.

Sim, estava de peruca, plumas, batom, salto alto etc. E disse as verdades que estavam mudas, sim, as verdades que precisavam ser ditas — urgentes, inadiáveis e santas verdades. Ainda bem que milhões de telespectadores as ouviram. Se bem me lembro, eis as suas palavras:

— "É isso a juventude? E vocês são políticos? Querem o poder! Vocês não sabem nada, não entendem nada! Analfabetos em política e arte! Se entendem de política como entendem de música, desgraçado Brasil!".

Não me lembro de tudo. Houve um momento em que Caetano Veloso comparou, e com exemplar justiça, as duas vergonhas: — a vaia obscena e a invasão do Teatro Ruth Escobar.

Naquela ocasião, depois do espetáculo de Roda viva, uns quarenta bandidos espancaram o elenco. Havia uma atriz grávida, que gritou: — "Estou grávida!". Levou um chute na barriga. Foi pisada como uma flor do nosso Vandré.

E dizia Caetano Veloso:

— "Vocês não são melhores! São iguaizinhos!".

Os idiotas da objetividade hão de perguntar:

— "E a peruca? E as plumas? E o batom? E o salto alto?".

Eu responderia que qualquer um pode ter uma indignação à Zola. Quando morreu o autor de Germinal, disse alguém, à beira do túmulo:

— "Zola foi um momento da consciência humana".

No teipe de sábado tivemos, pela fúria de Caetano Veloso, um momento da consciência brasileira. E vimos como a sua implacável lucidez acuou e bateu a "jovem obtusidade".

[26/9/1968]


A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Revolucionário de Festival

Em 1968, "Pra não dizer que não falei das flores" era o favorito no público, mas não venceu o festival.

Repito que o grande momento do Festival foi o ódio de Geraldo Vandré. Era o talento ferido. E as vaidades do autor estavam mais eriçadas do que as cerdas bravas do javali. Pouco antes, ao executar o seu número, era o vencedor total. Vocês se lembram dos comícios do Brigadeiro. A massa gritava: — "Já ganhou, já ganhou!".

Também domingo os fiéis de Vandré berraram: — "Já ganhou, já ganhou!".

E, finalmente, quando saiu o resultado, o autor de "Caminhando" foi o maior espanto da terra. Apunhalado por um segundo lugar — um torpe segundo lugar — quase desabou, fisicamente. E, em seguida, rompeu de suas entranhas um ódio que bem merecia estar inserido nas obras completas de William Shakespeare. O leitor, que é um simples, há de pedir um sinal exterior e concreto de sua ira. Não houve tal exteriorização. O ódio de Vandré permaneceu dentro de Vandré.

Mas dizia eu, na confissão de ontem, que as caras não mentem. E a jovem cara crispada de Vandré não fazia nenhum mistério. Bem sei que, da boca para fora, ele pedia aos seus devotos: — "Aplaudam Tom e Chico, como se fosse eu!". Mas a vaia explodiu. Ou por outra: — não sei se era mesmo vaia. Hoje, o povo aplaude como se vaiasse e vaia como se aplaudisse.

Contei o caso da universitária que, em São Paulo, arrancou os sapatos e batia com os saltos um no outro. Ninguém sabe, até hoje, se estava contra ou a favor. Outros assoviam, vaiando ou aplaudindo. E há os que fazem castanholas com a boca. No Maracanãzinho, sujeitos sapateavam como bailarinas de Sevilha.

Cabe então a pergunta: — e foi mesmo injustiça?

Admitamos que sim. Faz de conta que o segundo lugar é pior do que a lanterna. E que "Sabiá" não merecia nem a lanterna. Admitamos tudo isso. Mas, se houve injustiça, Vandré deve ser festejado e não chorado. Seus partidários devem recolher todos os palavrões. E, de fato, não há nada mais promocional do que a injustiça. O "injustiçado" assume uma dimensão inesperada e gigantesca. Quando passa, é lambido com a vista. Só uma coisa me espanta: — é que não tenham carregado o Vandré na bandeja, e de maçã na boca, como um leitão assado.

Todavia, já uma dúvida se insinua no meu espírito. "Para não dizer que não falei de flores" é uma bela canção. Não há dúvida. Bela canção. Mas ainda ontem dizia-me um amigo:

— "Sou contra 'A Marselhesa'! Não topei 'A Marselhesa!'".

Custei a entender que ele falava, justamente, da música de Vandré. E, sem o saber, o meu amigo deu-me a pista exata. Era uma deslavada "Marselhesa". Agora mesmo, ao bater estas notas, vejo toda a cena. Vandré está fazendo a música do Festival. Evidentemente, quer partir para o social, o político, o épico, o homérico, ou sei lá. O Chico, ou o Tom, pode encerrar-se no lirismo íntimo. Mas um rapsodo como o Vandré sonha com a grande comunicação. E, então, quis fazer "A Marselhesa". Eis aí, em rápidas pinceladas, o que foi a concepção, o que foi a execução de sua obra. Perdeu noites, na fremente elaboração. Mas quando acabou a sua "Marselhesa" — saiu-lhe a anti-"Marselhesa". Aí está, como eu dizia, o defeito.

Lenin falou no "ópio do povo". O que o Vandré fez é o que há de mais ópio, de mais sedativo, repousante, embalador, suavíssimo. É o tipo de música que o sujeito deve ouvir na rede, abanando-se com a Revista do Rádio. Quase uma berceuse. E o próprio Vandré a canta em surdina, como se estivesse fazendo o povo dormir.

Repito que nunca se viu uma "Marselhesa" tão pouco "Marselhesa", tão anti-"Marselhesa". Dirá alguém: — "E a letra?". De fato, há a letra. Mas é óbvio que o nosso "injustiçado" fez o libreto para a ópera errada. Há, sim, entre a música e o canto, o feio e cavo abismo das incompatibilidades totais. É só prestar atenção.

Uma coisa não tem nada a ver com outra. E já me parece certo o seguinte: — a sua música é o que há de mais impróprio, de mais ineficaz para resolver as cóleras, sim, as cóleras que dormem nas entranhas populares.

Todavia, o nosso Vandré não foi um caso único. E, súbito, explode na vida brasileira uma nova figura: — o "revolucionário de Festival". Vocês entenderam? Trata-se do herói sem risco. Claro que outros países, e os outros idiomas, também o têm. Foi assim na nova e jovem "Revolução Francesa". Milhões de franceses entraram no movimento. Pois bem. E não morreu ninguém. Não houve um morto e, ouso mesmo dizê-lo, não houve um ferido. Na França, morre-se muito de atropelamento. Mas como os estudantes viraram todos os carros, a "revolução" não teve nem os atropelados dos dias úteis. Eis o óbvio ululante: — o "revolucionário de Festival" não mata, nem morre. Põe entre a sua pessoa e o perigo uma sábia distância.

Por exemplo: — o Roldão. Fez outra "Marselhesa" que se chama "América, América". Vejam vocês: — temos, ali, nas nossas barbas cínicas, Magé. Todos conhecemos Magé. Magé, repito, está diante de nós, fisicamente próxima. Podemos apalpá-la, podemos farejá-la. Lá, de vez em quando, uma ratazana devora um recém-nascido. E vem o Roldão, com seu bigode boliviano, a falar de "América, América". Eis a verdade a um só tempo deplorável e patusca: — o "revolucionário de Festival" não toma conhecimento do Brasil.

Aqui mesmo, nesta coluna, contei um episódio que me pareceu uma obra-prima de alienação. Era uma passeata. E um rapaz empunhava este cartaz: — "Muerte" etc. etc. Adiante, outro: "Independiencia o muerte". E, de repente, graças às nossas esquerdas, o brasileiro se põe a odiar, a matar, a morrer em castelhano.

Eis a pergunta que, em casa, vendo o Festival, eu me fazia: — "Por que o nosso Roldão não vai cantar guarânia, ou bolero, ou tango?". Talvez, um dia, alguém se lembre de medir a distância que há entre as nossas esquerdas e esse pobre-diabo colossal, que é o Brasil. Ninguém apontará um "revolucionário de Festival" que mencione, ainda que de passagem, ainda que de raspão, esta mísera terra.

Vejamos o Vandré. Nem o Brasil, nem o brasileiro entram na sua berceuse.


[2/10/1968]


A Cabra Vadia: novas confissões / Nelson Rodrigues; seleção de Ruy Castro. — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.