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domingo, 4 de dezembro de 2022

Caymmi: Nas Graças de Iemanjá

"Peguei um Ita no Norte, e vim pro Rio morar ..." e Dorival contempla nostálgico o navio que talvez o
tenha trazido da Bahia ...

Dorival Caymmi é um acontecimento na música popular brasileira. O cronista e compositor Antônio Maria diz que só deixará de falar nele “quando morrer” ... E todos nós gostamos desse poeta do nosso mais puro folclore ... (Reportagem de Zenaide Andréa e fotos de Kásmer)

“Quem quiser vatapá ... que procure fazê, primeiro o fubá, depois o dendê ...”

Parecia estarmos em plena Bahia, com todo o doce feitiço que emana da sua gente, das suas festas mais típicas, e de todas aquelas crendices que tão fundo marcam a alma do seu povo. Era a saudade que falava alto e sonoro, contando a noite, o vento, a aventura dos saveiros pelos mares de Castro Alves, a história do casario colonial, a solidão do Pelourinho “quando a madrugada purifica e salva o homem que a ladeira cansou, que a vida tentou matar” — conforme disse mesmo Antônio Maria, autor do texto do show que nos deu toda essa impressão, lá na boate Casablanca.


Ao seu lado, a incomparável Ângela Maria, indiscutivelmente a nossa maior cantora no gênero, e outra figura feminina que se Impõe nos nossos meios artísticos: Tereza Austregésilo, que interpreta, em gracioso “travesti”, um personagem das ruas de Salvador, o poeta “Cuíca de Santo Amaro”. Há, também, o jovem ator Paulo Maurício (que já viveu na tela o tipo do cantor de “Espumas Flutuantes”) e unia porção de garotas bonitas e bastante harmoniosas com o ritmo dolente que nos vem, assim, da velha Tomé de Souza ...

Carlos Machado, sempre gentil e interessado em presentear o Rio com belas e novas emoções noturnas, faz parar um instante os trabalhos da representação, para que Dorival venha ao nosso encontro. As pequenas, porém, continuam a repetir os últimos versos que ele entoava, e a bambolear os quadris, como as pitorescas vendedoras das praças públicas de Salvador:

“Não pára de mexê, que é pra não embolá ...”

Caymmi começa, então, a conversar conosco. São flagrantes de sua existência, fragmentos de suas inúmeras lembranças, que lhe acodem naturalmente à memória, nesse instante em que lhe pedimos um pouco do seu destino, para narrar aos nossos leitores... Ele é uma dessas vocações autênticas, absolutamente sinceras, e, como tal, não costuma falar muito de si mesmo. Prefere dizer de suas alegrias ou de seus dissabores cantando, ou compondo, “O Mar”, “Marina”, “O que é que a baiana tem” etc, e, agora, esse fatalista samba-canção que andou já na boca de toda gente: “Não tem solução”...

— Qual, dentre as músicas que fez, é a sua predileta? — indagamos, após recordarmos alguns dos seus maiores sucessos.

— Não tenho preferências, nesse sentido. Para mim, todas se parecem e estão no mesmo plano. O povo é que escolhe ... Por último, acho que preferiu, por exemplo, o “Nem eu” e “Não tem solução”, este feito de parceria com Carlos Guinle.

— E como escreve as suas músicas? Tem algum lugar ou hora especial, para isso?

— Faço-as a qualquer momento, em qualquer canto. Mas, geralmente, trabalho em casa.


Como se sabe, Dorival é casado com a cantora Stel Maris, que abandonou as suas atividades profissionais (na Mayrink Veiga, onde esteve por um ano, e isso depois de surgir vitoriosamente como amadora) pelas obrigações do lar. O casal possui três filhos, Dorival, Danilo e Nana, que constituem o encanto dos Caymmis e dos quais ele nos fala com o mais grato e espontâneo entusiasmo.

Tínhamos sabido que se cogitava de uma reedição do “Cancioneiro da Bahia”, a notável compilação de Dorival, com prefácio de Jorge Amado e ilustrações de Clóvis Graciano. O “cantor das graças de Iemanjá” confirmou a informação — o que é especialmente interessante para quantos apreciam o nosso folclore, e ainda não dispõem desse volume, como é o nosso caso — e acrescentou:

— Será completada pelas minhas novas canções.

A seguir, passamos a tratar de cinema e teatro. Dorival fez parte da representação de “Joujoux e Balangandans”, levada à cena no Municipal há alguns anos, conforme devem recordar os que nos leem. E na tela ainda pela mão do escritor Henrique Pongetti, o responsável por aquele espetáculo, apareceu no “short” “A jangada voltou só”, de Ruy Santos, tendo ainda figurado noutro filme de valor, “Estrela da manhã”, com “script” de Jorge Amado, para a Filmoteca Cultural.

Hoje, porém, dada a intensidade do seu trabalho, na boate da Praia Vermelha, no rádio e na Televisão Tupi, nesta capital e em São Paulo, e às suas gravações e outros misteres correlatos, Caymmi não dispõe de maior tempo para devotar aos estúdios cinematográficos e ao palco. Aliás, em relação ao teatro, embora elogiando o que Pongetti dele conseguiu àquela ocasião a que nos referimos, afirma ter desistido por completo.


Cremos que a sétima arte também não o atrai muito, a não ser como espectador, talvez. Seu gosto pelas coisas da Bahia e o seu amor sem limites pela música que compõe e que canta, são, em definitivo, as “constante” de seu temperamento. Fora disso, tudo o mais será paisagem, para ele — e não a imorredoura sensação da paisagem de Itapoã ...

Dorival nasceu em 30-4-1914. Seus cabelos vão já grisalhando, mas sua face é límpida e sem rugas, com um ar de candura satisfeita, que lhe deve vir da infância livre e descuidada, lá pelas terras cheias de sol da sua querida Bahia...

Tem já o seu nome numa praça de Salvador, na qual cantou para uma grande multidão, que o aplaudiu delirantemente. Não há quem não goste dele. E Antônio Maria escreveu que só deixará de falar de Caymmi, quando morrer ... Nada mais justo e compreensível, acreditem.


Fonte: Cinelândia, edição 24, novembro de 1953 (Rio Gráfica e Editora)

domingo, 9 de outubro de 2022

Caetano Veloso: Coqueiro de Itapoã

Coqueiro de Itapoã (1958) - Dorival Caymmi - Intérprete: Caetano Veloso

LP Cores, Nomes / Título da música: Coqueiro de Itapoã / Dorival Caymmi (Compositor) / Caetano Veloso (Intérprete) / Gravadora: Polygram / Ano: 1982 / Nº Álbum: 6328 381 / Lado A / Faixa 5 / Gênero musical: Canção.


    C7+     E7 Am7 C7/G
Coqueiro de Itapoã
   F7+  C/E Dm7 A7
Coqueiro

  Dm7    Dm/C G7 G/F
Areia de Itapoã
  C7+ A7 D4/7 G7
Areia
   C7+     E7 Am7 C7/G
Morena de Itapoã
   F7+  C/E Dm7 A7
Morena
  Dm7    Dm/C G/B G/F
Saudade de Itapoã
    Em7 Eb7/9 Dm7 G7
Me deixa
    C7+        Dm7   Em7        C7
Oh! Vento que faz cantigas nas folhas
    F7+     A7    Dm7 A7
No alto do coqueiral
    Dm7          A7     Dm7
Oh! Vento que ondula as águas
   F7+   Am7     D7     Dm7  G7
Eu nunca tive saudade igual
   Ab7+   Fm7    Cm7
Me traga boas notícias
 Cm/Bb  D7/A  Ab7+     Cm7 Cm/Bb
Daquela terra toda manhã
  Fm/Ab     Fm7      Cm7
E jogue uma flor no colo
   Cm/Bb   D7/A  Ab7+ G7
De uma morena em Itapoã

    C7+     E7 Am7 C7/G
Coqueiro de Itapoã
   F7+  C/E Dm7 A7
Coqueiro
  Dm7    Dm/C G7 G/F
Areia de Itapoã
  C7+ A7 D4/7 G7
Areia
   C7+     E7 Am7 C7/G
Morena de Itapoã
   F7+  C/E Dm7 A7
Morena
  Dm7    Dm/C G/B G/F
Saudade de Itapoã
    Em7 Eb7/9 Dm7 G7
Me deixa
    C7+        Dm7   Em7        C7
Oh! Vento que faz cantigas nas folhas
    F7+     A7    Dm7 A7
No alto do coqueiral
    Dm7          A7     Dm7
Oh! Vento que ondula as águas
   F7+   Am7     D7     Dm7  G7
Eu nunca tive saudade igual
   Ab7+   Fm7    Cm7
Me traga boas notícias
 Cm/Bb  D7/A  Ab7+     Cm7 Cm/Bb
Daquela terra toda manhã
  Fm/Ab     Fm7      Cm7
E jogue uma flor no colo
   Cm/Bb   D7/A  Ab7+ G7
De uma morena em Itapoã

    C7+     E7 Am7 C7/G
Coqueiro de Itapoã
   F7+  C/E Dm7 A7
Coqueiro
  Dm7    Dm/C G7 G/F
Areia de Itapoã
  C7+ A7 D4/7 G7
Areia
   C7+     E7 Am7 C7/G
Morena de Itapoã
   F7+  C/E Dm7 A7
Morena
  Dm7    Dm/C G/B G/F
Saudade de Itapoã
    Em7 Eb7/9 Dm7 G7
Me deixa
   Gm7 C7/9 F7+ Bb7/9
Me deixa
   C7+
Me deixa

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Dorival Caymmi: Saudade da Bahia

"Saudade da Bahia" nasceu numa tarde calorenta do verão de 1947. "Eu estava sozinho num bar perto de minha casa no Leblon, o Bar Bíbi, chateado com a agitação da cidade, quando me ocorreu a ideia", recorda Dorival Caymmi (foto). "Era uma ideia tão melancólica - logo eu que sou otimista - que resolvi guardar a canção para mim, mostrando-a apenas a alguns amigos mais íntimos."

Daí se passaram dez anos até o dia em que Aloísio de Oliveira, um desses amigos, convenceu o compositor a gravar "Saudade da Bahia". Diretor artístico da Odeon na ocasião, Aloísio estava ansioso para faturar na esteira do sucesso de "Maracangalha" e, como Caymmi não tinha composições novas, sugeriu: "E por que não aquela que fala de saudades da Bahia?" Assim, programada às pressas, "Saudade da Bahia" foi gravada, batendo recordes de vendagem, o que lhe proporcionou um prêmio especial de uma cadeia de lojas de São Paulo.

Saudade da Bahia (samba, 1957) - Dorival Caymmi

Disco 78 rpm: Título da música: Saudade da Bahia / Autoria: Caymmi, Dorival, 1914-2008 (Compositor) / Caymmi, Dorival (Intérprete) / Peracchi, Leo (Acompanhante) / Orquestra (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 26/02/1957 / Nº Álbum 14198 / Lado A / Gênero: Samba


C------------- Bm7/-5---- E7 -----Am7 ----Gm7 ----C7
Ai ai que saudade eu tenho da Bahia
F ---------------A7 -----------------Dm7 ------G7
Ai se eu escutasse o que mamãe dizia
-----F ------------------- B7---- Em7
“Bem não vá deixar a sua mãe aflita
------------A7----------------- Dm7
A gente faz o que o coração dita
---------------A9- --------------D7/9------ G7
Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão”

C --------------Bm7/-5 ---E7 -----Am7 ----Gm7 ----C7
Ai se eu escutasse hoje eu não sofria
F -----------A7 -------------------Dm7 ------G7
Ai essa saudade dentro do meu peito
F ----------------------B7------ Em7
Ai se ter saudade e ter algum defeito
-------------A7 --------------Dm7
Eu pelo menos mereço o direito
-------------G7 --------------------C6/9 ------A9-
De ter alguém com que eu possa me confessar

-----Dm7 ------------G7 ---------------Em7
Ponha-se no meu lugar e veja como sofre
------------------A9- --------Dm7---------- G7
Um homem infeliz ----que teve que desabafar
--------------------C6/9 ---------------Em7 ------A9-
Dizendo a todo mundo o que ninguém diz
Dm7--------------- G7
Vejam que situação
-------------------Em7--------------- A9-
E vejam como sofre um pobre coração
Dm7------------------- G7
Pobre de quem acredita
---------------------C6/9
Na glória e no dinheiro para ser feliz



Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Anjos do Inferno: Rosa Morena


Rosa Morena (samba, 1942) - Dorival Caymmi

Disco 78 rpm / Título da música: Rosa Morena / Autoria: Caymmi, Dorival, 1914-2008 (Compositor) / Anjos do Inferno (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Columbia, 1942 / Nº Álbum 55380 / Lado B / Gênero musical: Samba

G7+   Am7     D7              G7+ 
Rosa Morena, onde vais morena Rosa  
          Am7       Bm7          E7/5+        Am7 
Com essa rosa no cabelo e esse andar de moça prosa  
 D7              G7+ 
Morena, morena Rosa  
 G                   G5+/7    C7+ 
Rosa morena o samba está esperando  
  Cm7      F7/9   G7+ 
Esperando pra te ver  
 Bm5-/7              E5+/7     Am7 
Deixa de lado esta coisa de dengosa  
     Cm          G7+ 
Anda Rosa vem me ver  
                    C/D 
Deixa da lado esta pose  
         Bm7        E5+/7 
Vem pro samba vem sambar  
     Am7/9         D7         G7+ 
Que o pessoal tá cansado de esperar 
    E5+/7       Am7/9         D7         G7+ 
Ô Rosa, que o pessoal tá cansado de esperar 
    E5+/7           Am7/9         D7         G7+ 
Morena Rosa, que o pessoal tá cansado de esperar 
    E5+/7       Am7/9         D7         G7+ Am7 D7 G7+ 
Viu Rosa, que o pessoal tá cansado de esperar 

Bando da Lua: Samba da Minha Terra

Bando da Lua - Foto: Revista CARIOCA, Abril/1936

Conta Dorival Caymmi que "'O Samba de Minha Terra' foi inspirado nos sambas de roda da Bahia, onde se cantam versos referentes ao 'bole-bole' e ao 'requebrado', sugestões nascidas do movimento sensual das ancas das sambistas". São de sua segunda-parte os famosos versos: "Quem não gosta de samba / bom sujeito não é / é ruim da cabeça/ ou doente do pé".

Pertencente à fase inicial da carreira do autor, seria lançado pelo Bando da Lua em sua visita ao Brasil em 1940. Foi, aliás, o último fonograma registrado pelo Bando no Brasil. "O Samba de Minha Terra" foi regravado por João Gilberto em seu elepê de 1961, com o conjunto de Valter Wanderley, num arranjo que se inicia com uma marcante introdução de João, imitando um tamborim, numa demonstração inequívoca de que a bossa nova era fortemente enraizada no balanço do samba. João ainda gravaria "O Samba de Minha Terra", ao vivo, no Carnegie Hall, em 1964.

O samba da minha terra (samba, 1940) - Dorival Caymmi

Disco 78 rpm / Título da música: Samba da minha terra / Autoria: Caymmi, Dorival, 1914-2008 (Compositor) / Bando da Lua (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Columbia, 1940 / Nº Álbum 55245 / Lado A / Gênero: Samba

Tom: G
Introdução: D7/9+

Em              Am
Samba da minha terra
D7    Bm
Deixa a gente mole
Em       Am
Quando se dança
D7    Bm
Todo mundo bole
C7+        Bm
Quem não gosta de samba
E7/9-          A7/13
Bom sujeito não é
Am5-/7
É ruim da cabeça
D7           G7+
Ou doente do pé
C7+         Bm
Eu nasci com o samba
E7/9-         A7/13
No samba me criei
Am5-/7
E do danado do samba
D7           G7+
Nunca me separei


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Anjos do Inferno: Doralice

Doralice (samba, 1945) - Dorival Caymmi e Antônio Almeida

Disco 78 rpm / Título da música: Doralice / Autoria: Almeida, Antônio (Compositor) / Caymmi, Dorival, 1914-2008 (Compositor) / Anjos do Inferno (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: RCA Victor, 1945 / Nº Álbum 800329 / Lado A / Gênero musical: Samba

A7+                   B7
Doralice eu bem que te disse
        E7                  A7+
Amar é tolice, é bobagem, ilusão
                       E7+
Eu prefiro viver tão sozinho
   C#m      F#m7     B7    Bm7 Bº
Ao som do lamento do meu violão
  A7+                    B7
Doralice eu bem que te disse
              E7                    Em7 Eº
Olha essa embrulhada em que vou me meter
 D7+   Dm6   A7+/C#      C#º
Agora amor, Doralice meu bem
    Bm7        Bº     A7+  A6
Como é que nós vamos fazer?
        Bm7      E7    A7+ A6
Um belo dia você me surgiu
         G#m7      C#7     F#m7
Eu quis fugir mas você insistiu
        Bm7            E7        A7+   A6
Alguma coisa bem que andava me avisando
      Bm7           E7         A7+
Até parece que eu estava adivinhando
   Cº            Bm7      E7      A7+
Eu bem que não queria me casar contigo
 Cº           Bm7      E7           Em7     Eº
Bem que não queria enfrentar esse perigo Doralice
 D7+       Dm6         A7+/C# C#º
Agora você tem que me dizer
     Bm7        E7     A7+
Como é que nós vamos fazer?