Páginas

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Nosso Sinhô do Samba - Parte 8

Capa de "Jura" - Arquivos Almirante - Museu Imagem e Som

Cedo vivendo vida de boêmio por força da profissão — pianista de gafieiras e clubes recreativos — J. B. Silva nunca foi inveterado bebedor, o que não significa tenha sido abstêmio. Nada disso. Mas mantinha certo controle na ingestão de líquidos, o que é singular nas esferas em que vivia.

Já no terreno do amor, o cafuzo era menos moderado. Aos dezessete anos casou com Henriqueta Ferreira, portuguesa que ao tempo vivia com Henrique Ferreira da Silva.

Viu-a o pianista na sede de uma sociedade carnavalesca e logo por ela se enfeitiçou, sem atentar na sua idade e na situação da moça. Acabou raptando-a da casa da sua tia Maria e levando-a para a residência da mãe dele, no Engenho de Dentro. Dela teve três filhos: Durval, Ida e Odalis, o primeiro e o último falecidos ainda em vida do sambista.

Separou-se mais tarde de Henriqueta, que veio a falecer em 1914. Depois passou a viver com Cecília, pianista, empregada da Casa Beethoven. Foi-lhe companheira dedicada que muito o ajudou no início da sua vida de compositor. Pianista de algum mérito, Cecília lhe prestou valiosa colaboração, inclusive junto àquela casa editora. Entretanto, Sinhô ingratamente a abandonaria logo mais por causa de uma Carmen, mercadora de amor, residente na Avenida Mem de Sá. Seduzido pelos dotes físicos dessa Carmen, rápido o compositor esqueceu o quanto devia à Cecília.

Outras mulheres figuraram demoradamente na sua vida amorosa, de sentimental exagerado. De uma feita, sentindo-se traído por um amigo jornalista numa das suas afeições, chegou a pensar em suicídio e em vinganças sanguinolentas. Imaginou até o esquema da tragédia. Um amigo, o advogado e jornalista Astério de Campos, cuja casa frequentava, paternalmente o aconselhou numa hora de incontido desespero. Sinhô refletiu, ponderou e dias depois reapareceu ao amigo advogado para dizer-lhe que aceitara seu conselho e resolvera desprezar os dois. E daí nasceu mais uma canção, o samba Sabiá, que ele sempre ouvia de olhos marejados.

Ao morrer, tinha como companheira, há dez anos, Nair Moreira, de apelido ‘Francesa’, que veio a falecer em agosto de 1944. Era casada, com marido vivo, o que a impediu de consorciar-se com Sinhô, viúvo desde 1914. Nair foi excelente companheira. Viviam os dois muito bem. A mulher o estimava bastante e tratava dele com carinho. Sinhô também correspondia sua afeição e dispensava muita atenção às duas filhas que Nair trouxera do casamento. Antes de ir morar na ilha do Governador, residiu com Nair na casa de seu pai, na Rua do Cunha, 16.

Tão dedicada ao sambista se mostrou Nair Moreira que talvez não passe de lenda (mais uma) a queima que teria feito, depois da morte de Sinhô, da mala que lhe pertencera e onde se encontrava todo o seu arquivo, músicas velhas, composições inéditas, fotografias e recortes, reminiscências e bosquejos. Teria feito mais. Pôs o violão de Sinhô numa rifa e como ninguém o tirasse, Nair o vendera por cem mil réis. Ainda que tudo isso tenha acontecido, antes de taxarmos de leviano e impensado o comportamento de Nair, consideremos a situação em que se encontrara para agir de tal maneira. (1)

O violão era de grande estimação do compositor. Quando furtado certa vez de um botequim no Méier, onde o deixara por um instante, Sinhô chorou copiosamente. A polícia encontrou o instrumento na Piedade e o devolveu. A propósito do fato e do carinho que o boêmio dedicava ao instrumento, lembre-se o que disse na revista Weco, editada pela casa Carlos Wehrs & Cia. (n° 3, de janeiro de 1929):

“Souberam que o meu violão era caixinha mágica dos sons, onde eu ia buscar a melodia sincera que dou aos meus admiradores, a estes que bondosamente acharam de denominar-me o Rei do Samba e, zás, um belo dia roubaram o meu companheiro, o meu idolatrado pinho. Dada a queixa à Quarta Auxiliar, tratei por meu lado de investigar e, de pesquisa em pesquisa, descobri o meu violão, que tinha sido vendido a certo intrujão. Feita a apreensão do meu instrumento, só eu sei a alegria que me ia na alma, o meu companheiro de descantes, a minha caixinha mágica dos sons, o meu tudo, a razão de ser das minhas contínuas vitórias era aquele violão velho meu confidente nas horas de alegrias tumultuosas e na sólido do meu lar”. (2)

O episódio e o artigo de Sinhô, talvez excessivamente literário, mostram bem a afetividade do Rei do Samba, no fundo um sentimental e, embora também evidencie um pouco de ingratidão para o piano que o tornara famoso e lhe fora o pão de cada dia. Era provável até que ganhasse ao piano para gastar ao violão.

Duvido que qualquer escritor especializado no ofício de escrever para crianças fizesse melhor página. Aliás, é oportuno transcrever o que a respeito do ‘romance pedagógico’ disse a revista especializada em discos Phono-Arte, no seu n° 6, de 30 de outubro de 1928:

“O que vem a ser um “Romance Pedagógico”?... Pela primeira vez em música, deparamos com esta denominação, assaz excêntrica, perfeitamente inédita... Enfim, os leitores que procurem decifrar esta espécie de charada. Como música, a peça de grande delicadeza é mesmo bonita! A sua melodia, sentimental e harmoniosa, agrada muito. Letra delicada, expressiva e bem adaptada.”

Valeu ou no valeu então a excentricidade de Sinhô? Melodia sentimental, harmoniosa e agradável. Versos delicados, expressivos e bem adaptados. Para que mais? O compositor já provara sua inclinação para a música destinada às crianças com a cançãozinha Ao futebol, que acabou incluída no Cancioneiro Escolar de Minas Gerais, segundo informação de Mariza Lira:

Todos gostam de chutar
Jogando o futebol
Oh, sim
Não posso, pois, ficar
Assim
Vou também brincar

Sim!
Sou guri
exclamam vocês
mas hoje os guris
não são mais bebês
como antigamente
e no futebol
todos fazem o gol
nós e vocês ...

O grande emotivo não estaria apenas nas suas composições, muitas de acentuado sabor lírico e romântico, mas em pequenas ocorrências que bem lhe evidenciavam a derramada ternura.

Afastado do convívio do pai, modesto, mas ativo pintor de paredes que não se alegrava muito ao vê-lo atirado à boêmia, sem ofício mais rendoso e menos instável, numa época em que a musica popular era mais ideal do que profissão, Sinhô pouco se avistava com o velho, talvez para não lhe ouvir os conselhos e as reprimendas. Mas uma vez o lobrigou ao passar por uma rua. Trepado a uma escada, o operário diligente pintava a fachada de uma casa, assobiando. Sinhô aproxima-se, disfarçadamente, para não ser visto. E comovidíssimo, de olhos rasos, fica debaixo da escada, enquanto o pai assobiava um dos seus sambas mais populares.

Outro episódio, não se sabe bem com quem ocorrido, atesta o sentimentalismo do caboclo carioca. Talvez com uma das filhas de Nair Moreira, que Sinhô considerava como filhas, ou com a própria filha, ou com uma das suas amadas em fase de malquerença. O fato é que Sinhô compusera uma valsa para oferecer à criatura a quem pretendia homenagear no aniversário. Mas não poderia levá-la por motivos de não se encontrar em boas relações com os parentes da aniversariante. Então, fez seu mensageiro o amigo Vasseur, companheiro das madrugadas, a quem incumbiu de levar a composição até a homenageada e de, se possível, executá-la ao piano. Mas antes de chegarem os dois às proximidades da casa em festa já não se encontravam em plena forma. Muitas tinham sido as paradas do itinerário. Sinhô fez recomendações especiais a Vasseur e ficou na esquina enquanto o amigo caminhava não muito aprumado, mas soberano e cônscio da sua missão. Entrou e fez entrega da valsa à moça e logo se prontificou a executá-la. E Sinhô, da esquina, ouviu atento a melodia não muito fiel, mas bastante expressiva a ponto de comovê-lo e mais uma vez encher-lhe os olhos d’água. (3)


Notas: (1) Segundo outra versão, tais fatos teriam ocorrido em 1944, depois da morte de Nair verificada nesse ano; (2) Esse artigo foi republicado mais tarde por Brício de Abreu, que o encontrara naquela revista na Biblioteca Nacional (Música & Letra, n° 14, ano III, 1958); (3) Episódios narrados por Sinhô a Luiz Peixoto.


Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.

Nosso Sinhô do Samba - Parte 7


Sinhô, que não aparecera na co-autoria de "Pelo telefone", por ele arrolado como uma das suas produções, foi acusado de plagiário e aproveitador de trechos de outros compositores. Considerando-se vítima de um ludíbrio ao ingressar no cenário musical do Rio, até parece que o sambista deliberara pagar a outros com a mesma moeda. Vingar-se do primeiro logro logrando a terceiros.

Mas o certo é que algumas das acusações feitas a Sinhô se diluem na fragilidade das provas, no vazio das afirmativas. Ressalte-se que à época de tais acusações a música popular ainda era terra de ninguém.

Não havia o direito autoral e geralmente se fazia dono da composição musical o mais esperto, que andasse mais ligeiro. Era corrente o conceito atribuído a Sinhô: “Samba é como passarinho, é de quem pegar”.

Talvez o primeiro acusador de Sinhô tenha sido o seu companheiro das reuniões da Tia Ciata, o tenente Hilário Jovino Ferreira, baiano autêntico, figura de proa nas rodas de samba e iniciador dos ranchos carnavalescos no Rio. Por coincidência também co-autor de “Pelo telefone”. Donga ainda hoje considera Hilário um dos grandes do samba carioca nos seus primórdios, o verdadeiro criador da coreografia do mestre-sala ou mestre de cerimônia dos ranchos, adotada igualmente pelas escolas de samba. Pois esse Hilário — chamado pelos companheiros ‘o bom Hilário’ — reinvestiu violento contra Sinhô quando do lançamento de “Fala meu louro”. Além de achincalhante da Bahia, Hilário considerava o samba “um dos mais audaciosos plágios de que há notícia na história dos sambistas”. A expressão talvez nem fosse do bom Hilário, mas do jornalista ávido de escândalo. E nem a essa altura havia amplitude para se falar em ‘história dos sambistas’. 

Era a segunda arrancada de Hilário contra Sinhô, que já lhe sofrera a réplica quando do lançamento do “Quem são eles?”, contraditado pelo tenente com o “Não és tão falado assim”.

O cronista Vagalume (Francisco Guimarães) publicava no Jornal do Brasil um repto de Hilário com a frase agressiva (1) e ainda a letra (muito bem feita) do samba-revide “Entregue o samba aos seus donos” (2). Sinhô não deu maior atenção ao incidente e continuou. Abafando. Vencendo e conquistando popularidade.

Depois veio a história de “O Pé de Anjo” que com “Pois não”, de Eduardo Souto e Filomeno Ribeiro, foi das primeiras marchinhas carnavalescas (1920) e a primeira impressa com essa designação, uma vez que “Pois não”, talvez por erro tipográfico ou lapso dos autores, trazia impressa a menção de samba.

A história da vitoriosa marcha que se projetou pelo Brasil, de sul a norte, sendo repetida em carnavais sucessivos, demonstra a sagacidade (ou malandragem se quiserem) do grande sambista do Rio. Estava ele na Casa Beethoven quando uma freguesa pede no balcão a valsa francesa “C’est pas difficile” (Jenny), de J. Dorin, da qual havia uma versão brasileira com o título “Jenny”:

Eis uma história singela
De um meigo e triste sabor
Onde figura uma bela
Sacrificada ao amor.

Ò Jenny
Meu sincero amor
Há de ser também
Entendido por ti, ó flor.

Vi-a uma vez na igreja
De olhar contrito a rezar
Como quem pede e deseja
Que Deus a venha perdoar.

O empregado atendeu a moça e, a seu pedido, levou a parte da música ao pianista da casa para que a executasse e a freguesa melhor a identificasse. Quando esta saiu, Sinhô ocupou o piano e começou a fazer variações em torno da melodia da valsa, alterando-lhe o ritmo e acrescentando-lhe uma que outra frase, enquanto ia cantarolando uns versos, Daí surgiria a marcha “O Pé de Anjo”, que registrou no Rio o maior sucesso do Carnaval de 1920 e foi com “Pois não”, de Souto e Filomeno Ribeiro, aparecida no mesmo ano, o ponto de partida da marchinha carnavalesca carioca.

Parece-nos que “O Pé de Anjo” foi o maior (e talvez o único) avanço de Sinhô em melodia alheia. Louve-se entanto a inteligência com que se houve na e1aboraçao dos versos que logo todo o povo cantou, embora não se lhe negue o pecado. Aqui o fabuloso compositor tem culpa alta no cartório.

A história do plágio da valsa francesa foi narrada por Almirante no seu famoso programa “A história das orquestras e músicos do Brasil”, ao microfone da Rádio Tupi, na noite de 6 de agosto de 1946, data que por coincidência lembraria o dia do nascimento do samba carioca. O programa de Almirante procurava atenuar o esquecimento em que jazia o compositor na semana que assinalava o 16° aniversário de sua morte. Esse episódio foi novamente revivido na triunfal palestra proferida por Almirante no golden-room do Copacabana Palace Hotel, na noite de 22 de abril de 1957, sob o patrocínio da Sociedade Teatro de Arte.

Sucesso absoluto em todo o Brasil, no “O Pé de Anjo” Sinhô mais uma vez provocava seus desafetos. A marcha ao que tudo indica era endereçada ao China (Otávio da Rocha Viana), irmão do Pixinguinha, um dos elementos mais visados pelo irrequieto compositor. Nos Estados a versão corrente era de que a marchinha visava ao então chefe de polícia do Distrito Federal, o Dr. Belisário Távora, cidadão de grandes virtudes, católico praticante e homem de físico avantajado.

Como iria suceder freqüentemente, a composição pioneira deu lugar ao surgimento de uma revista teatral, com o mesmo título, da autoria de Carlos Bittencourt e Cardoso de Menezes, que alcançou no Teatro São José o maior sucesso do gênero no Brasil, atingindo a mais de trezentas representações consecutivas. Além da marcha vitoriosa, a revista continha outros números de música de Sinhô. Um dos artistas de maior popularidade, o português J. Figueiredo, ficou famoso com a sua criação do personagem-título que lhe outorgou o apelido pelo resto da vida. No teatro ligeiro, Sinhô obtinha o mesmo êxito que obtivera nas ruas e salões do Rio, durante a grande festa popular.

Outro plágio imputado a Sinhô, na época, teria sido o do samba Dor de cabeça, lançado para o Carnaval de 1925, cujo estribilho, diziam, Heitor dos Prazeres reivindicava como de sua autoria. Improcedente a acusação, segundo a informação pessoal e insuspeita do próprio Heitor dos Prazeres. (3)

Mas se o sambista-pintor dignamente negou qualquer pretensão sua quanto àquele samba, assim nâo acontece com referência aos dois famosos sambas “Ora vejam só” (1927) e “Gosto que me enrosco” (1928-1929). Do primeiro Heitor dos Prazeres reivindica o estribilho gostoso, enquanto sustenta ser de sua autoria toda a primeira parte do “Gosto que me enrosco”:

Não se deve amar sem ser amado
. . . . . . . . . . . .

Heitor dos Prazeres reagiu vigoroso e enérgico contra a apropriação. E tal a sua revolta que não se conteve e lançou dois sambas visando à desmoralização do ‘rei do samba’. Um foi “Olha ele, cuidado” (Carlos Wehrs & Cia., 1415):

Olha ele, cuidado,
Ele com aquela conversa é danado
Olha ele, cuidado
Que aquele homem é danado.

Eu fui perto dele
Pedir o que era meu
Ele com cinismo comigo
Chorava mais do que eu.

Vive de tratantagens
Com todos os seus amigos
De tanto truque que tem
Chega a andar pensativo.

A estrofe final era ruim, mas sincera, pois devia ser lógica e natural a cólera de Heitor, que ainda ferretearia a Sinhô com outro samba, de título sugestivo — Rei dos meus sambas (Irmãos Vitale, 536):

Eu lhe direi com franqueza
Tu demonstras fraqueza
Tenho razão de viver descontente
És conhecido por ‘bamba’
Sendo ‘rei’ dos meus sambas
Que malandro inteligente.

Assim é que se vê
A tua fama Sinhô
Desta maneira és rei
- Eu também sou!

Eu sei que este é
O teu modo de viver...
Só não adoto
É o teu proceder.

Sinhô não gostou das réplicas violentas de Heitor dos Prazeres e se valeu do seu prestígio para impedir que pelo menos um dos sambas agressivos fosse gravado (4).  Ameaçou de processar o acusador. Mais tarde Heitor procurou o sambista rival em Santa Teresa, tendo recebido alguns mil réis (5) como indenização de sua parte no “Gosto que me enrosco”. Continuariam os dois estremecidos até o final, pois Sinhô desapareceria no ano seguinte.

Outra acusação foi feita a Sinhô de haver copiado de alguém (talvez de seu Candu) pelo menos o estribilho do samba “Já é demais” (1930). Também o Seu Candu teria sido Logrado pelo Antonico do Samba (Antônio Silva), que por seu turno sofrera iguais agravos de terceiros (6).

Esses os delitos autorais mais abertamente imputados ao festejado compositor. Os passarinhos pegados pelo inspirado sambista. São pecados que não lhe comprometiam a fama. Eurico Nogueira França considera inocentes tais plágios. Almirante informa que ocorriam freqüentemente na época. Alguns dos trechos aproveitados por Sinhô já eram como que do domínio público, cantados ou assobiados nas ruas.

Luís Peixoto sustenta que tudo isso eram insignificâncias diante da obra de Sinhô e da sua facilidade de composição. Afirma que muito mais teria sido o sambista carioca espoliado na sua produção, copiada aqui e ali, quando não por ele mesmo vendida miseravelmente a outros.

Sinhô viu publicadas mais de cem composições (quase cento e cinqüenta), entre as quais pelo menos dois terços ficaram famosos e foram autênticos êxitos populares num tempo em que não havia ‘paradas de sucessos’ ou outros expedientes publicitários. Almirante fez referência a uma cantiga de sabor sulino que o rádio transmitia de vez em quando como toada popular do Rio Grande do Sul. Era integralmente a canção “Sonho de Gaúcho”, de Sinhô. É que já naqueles tempos os locutores de rádio e os apresentadores de televisão tinham o feio hábito de não citar os autores, mas apenas os intérpretes.


Notas: (1) O cronista Vagalume jornalisticamente se aproveitava da confusão. Talvez mesmo a incentivasse e a exagerasse. Publicando depois um livro de crônica e memória, “Na roda do samba”, se demora na exaltação de Sinhô. E ao referir-se ao “Fala meu louro” (Papagaio louro) silencia, isto é, esquece o episódio de que fora espalhafatoso porta-voz na imprensa; (2) Capítulo “Vitórias e desavenças.”; (3) Informação prestada por Heitor dos Prazeres ao autor deste trabalho, na tarde de 3 de agosto de 1966, no Hospital dos Servidores do Estado, na presença de Almirante; (4) “Rei dos meus sambas” acabou gravado por Inácio G. de Loiola, disco Parlofon 13071. Não fez sucesso; (5) Trinta e oito mil réis em prestações que se interromperam com o agravamento da saúde do prestamista; (6) Almirante certa vez ouviu detidamente a Antonico do Samba, que morava em Tomás Coelho. Queixou-se o sambista de ter sido prejudicado varias vezes por terceiros que se apropriavam das suas composições no todo ou em parte. Exemplificou com o estribilho do samba “Foi ele que me deixou” (1919-1920) aproveitado pelo Careca; com o estribilho de “Você vai” (1919-1920) utilizado pelo José Francisco de Freitas. Referiu-se ainda a J. Thomás que, sempre sem-cerimonioso, teria encaixado o “Rosa meu bem”, também de 1919-1920, na revista “Ai Zizinha”, publicando-o depois como de sua autoria.


Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.

Nosso Sinhô do Samba - Parte 6


Sinhô era vaidoso como uma mulher bonita. Embora feio, bexiguento, de físico maltratado, trajava bem, às vezes até com certo capricho. Por muito tempo usou chapéu de copa alta, marca registrada dos elegantes da época. Se o tempo esfriava, aparecia com vistoso sobretudo de gola virada. Quando morreu, trazia punhos (ainda em uso). Um deles, lustroso, como era moda, ficou sujo de sangue da hemoptise. Também gostava de usar colarinho em pé, o que já motivara as alfinetadas de Pixinguinha no samba Já te digo.

Sua vaidade era natural diante dos seus triunfos. De poucas letras, sem quase nada haver estudado, inclusive música, Sinhô com pouco mais de trinta anos era popular, querido, discutido.

Foi no seu tempo o compositor popular de maior evidência em todo o Brasil. Vencedor na legítima significação do vocábulo, sem a ajuda de microfones, de telas de aparelho de tevê, de publicações especializadas, o que é importante.

Possuía lábia especial para as mulheres, que seduzia a seu modo. Teve o amor de brancas, morenas, louras e francesas falsas ou autênticas. Algumas mercenárias do amor se lhe dedicaram de corpo e alma. Seus versos, trôpegos ou no, maliciosos ou ingênuos, eram cantados em todo o Brasil. Privava da intimidade de gente de alto nível social; freqüentava boas rodas. Intelectuais o admiravam e o exaltavam. José do Patrocínio Filho, com quem tinha pontos estreitos de afinidade, como perspicazmente observa Manuel Bandeira (até no físico e nas petas, acrescentamos), era um dos seus amigos e incensadores. Mas enquanto Zeca do Pato era culto e viajado, o sambista seria um Zé do Pato sem verniz e sem leitura. Isso, ao contrário do que podia parecer, aumentava-lhe o prestígio.

Luís Peixoto, que foi amigo dos dois, conta que Sinhô freqüentava a roda do jardim Teatro Recreio, ainda nos seus tempos reduto de boêmios e artistas. E por mais de uma vez assistiu aos exageros de Zeca com referência ao sambista. Numa noite, depois de Sinhô cantarolar um dos seus novos sambas sob o enlevo dos presentes, Zeca, teatral como sempre, ajoelhou-se-lhe aos pés, exclamando:

— Homero! Homero!

Tudo isso deveria espicaçar os brios do cafuzo e torná-lo por vezes insolentemente vaidoso, como Bandeira observou na noite do velório daquele seu extremado admirador, o fabuloso José do Patrocínio Filho.

Mas se alguns que o conheceram figuram-no como vaidoso em excesso a ponto de se tornar intratável, não são poucos os que lhe elogiam o gênio e a sinceridade. Augusto Vasseur, que foi talvez o seu maior amigo, só tem elogios para o compositor que lhe dedicou algumas das suas produções. Foi Sinhô, aliás, quem iniciou Vasseur no Rio, apresentando-o, quando retornou ao Rio, a Cícero de Almeida, da orquestra da sala de espera do Cinema Avenida, onde se engajou a princípio ‘dando uma canja’, isto é, substituindo os músicos faltosos e depois integrando definitivamente a equipe.

O temperamento apaixonado do sambista muito deve tê-lo feito sofrer e por isso mesmo inspirá-lo e torná-lo quase voltado para os motivos de amor e paixão. Escravizava-se fácil e não tinha dúvidas a respeito do domínio feminino a que se jungia ainda que esperneando. Sabia que não adiantava. No samba Burro de carga (ou Carga de burro — 1927) já dizia com acentuada dose de sensatez:

Podes saltar!
Podes falar como quiser
Pois muita força
Tem o amor de uma mulher!

Deus fez o homem
E disse num sussurro!
Tu serás burro de carga
E a mulher carga de burro.

Não adianta
O homem se esconder
Quando a hora é chegada
O burro camba sem querer.

Mas tal como na música, Sinhô era brigão nos seus amores. E misturava quase sempre lirismo com agressividade. Na marchinha — gênero brejeiro por excelência — tinha delicadezas de tons suaves, como em A Juriti (1925):

Por que será
Meu beija-flor
Que a Juriti
Não esquece a dor?

Entretanto saía de repente do diapasão sentimental e engrossava. Na marcha Fala baixo:

Não é assim
Assim não é
Não é assim
Que se maltrata uma mulher.

E em 1924, com o samba Já-já:

Se essa mulher fosse minha
Apanhava uma surra já-já
Eu lhe pisava todinha
Até mesmo eu lhe dizer chegá

Mudava de tom com a mesma versatilidade com que mudava de amores no começo da sua carreira de compositor:

Não quero teima nem discussão
Meu doce bem minha paixão
Hei de vencer os carinhos teus
Com a luz dos meigos olhos meus. (1)

 Observem que os olhos meigos não são ‘dela’, mas ‘dele’. E logo o estribilho contundente:

Olá olé
Tu bem mereces
Um pontapé.

Essa brusca variação de tom, que era característica dos poemas de Carnaval, é comum na produção do sambista. Variação não apenas melódica mas de linguagem e às vezes até de motivo. Em Cabeça de promessa (1924) de título já estranho pelo menos para os de hoje, o marchista entra de sola:

Não tens razão
Oh! meu amor!
Deixa de história
Ó cabeça de promessa
Sem valor.

Essa ‘cabeça de promessa’ deve ser ‘ex-voto’ e possuir significado especial. Gíria da época ou apenas um dos encaixes íntimos, particularíssimos do compositor.

Em Achou ruim faz meio-dia, título que já é uma agressão, o sambista em 1923 sentencia pitorescamente, ao que parece com endereço certo:

Sabes bem
Que é preciso simpatia
Para galgar a fidalguia
Desta terra
Onde a trova é debatida
E esquecida
Como a canção perdida.

De quando em vez Sinhô invertia os papéis e de suplicante amoroso passava a carrasco, a durão, desdenhando e desalentando apaixonadas teóricas ou não. Como em Cabeça inchada (1923), marcha de título esquisito, em cujos versos o compositor parece fazer advertência cruel mas de certo modo racional:

Muito te enganas
Dê no que der
Eu sou de quem eu quero
E não de quem me quer.

E esta a dor
Que se parece
Com a dor que a própria dor
Desconhece.

A flor mais bela
o malmequer
Eu sou de quem eu quero
E não de quem me quer.

Essa a filosofia amorosa do sambista. Preferia amar a ser amado. Os versos em que pese ao título amalucado e extravagante como quase sempre ocorria são caprichosos. Além do apelo ao malmequer para a rima perfeita, observa-se o jogo de palavras da estrofe-estribilho com parecenças até de Fernando Pessoa, de quem nunca terá ouvido falar o sambista do Rio.

São uma constante na produção sentimental de Sinhô essas alternativas. Já em Deixa deste costume, samba de 1919, o compositor versejava:

Hei de acabar
Com este costume
Que você tem
Falando de mim
Dizendo horrores
Me querendo bem.

Ai... o amor
um capitoso vinho
Que nos embriaga
Com um só pinguinho.

E quase repetindo as rimas pobríssimas:

Você há de saber
Que esse costume
Não fica bem
Porque toda gente
Sabe a paixão
Que você me tem.

Ai! como é bom
Viver aconchegadinho
Gozando a vida
Com mais carinho.

Como um resmungão amoroso, Sinhô está sempre reclamando ou advertindo de que nada lhe acontecerá de mal porque tem boa ajuda. Santo forte. No samba democrático do Carnaval de 1924, O Garoto, repete-se o aviso:

Há muito vens batalhando
Pra me ver aborrecido;
Desistas dessa idéia
Pois que é tempo perdido.

Ë loucura procurar
Minha estrela derrubar
O guia que Deus me deu
Só ele o pode tirar (2)

Não faças como o garoto
Que, a mando do vizinho,
Pedrejou minha gaiola
E matou o passarinho.

O cronista Vagalume (Francisco Guimarães) no seu livro Na roda do samba relata que, certa noite, foi em busca de Sinhô no teatro para levá-lo a uma festa que precisava de pianista. Sinhô logo se prontificou. Mas só iria depois do espetáculo.

— Por quê? — indagou o cronista.

— Porque sou o autor da música. Se ao terminar os espectadores me chamarem à cena, como vai ser?

Vagalume fez-lhe ver que sendo aquela a 174a representação ninguém iria chamá-lo mais à cena.

— Como não? o que você pensa. O público é exigente. De repente cisma e começa a chamar: Sinhô! Sinhô! Seu eu não estiver no teatro olhe o fuzuê formado!

E não foi.

O episódio reflete na sua ingenuidade a vaidade do compositor que se sentia inflado aos ventos dos aplausos populares. E como esses foram sempre generosos a seu favor, na praça pública, na rua, nos salões ou nos teatros, Sinhô viveu muito tempo embriagado do sucesso, do prestígio emanado do povo que nunca lhe faltaria com seu entusiasmo e vibração.

Sua vaidade se estimulava inclusive pela propaganda das suas composições que, inspirada ou não por ele, era rasgada, exagerada mesmo. Algumas das edições tinham capa com modelo próprio, como as da Casa Viúva Guerreiro & Cia., figurando um bloco carnavalesco de que apareciam as figuras principais, com um fantasiado à frente empunhando estandarte com os dizeres: ‘Evohé — Carnaval de 192... ‘Novidades do Rei do Samba — Sinhô’.

Também algumas edições da Casa Carlos Wehrs ostentam na capa a famosa caricatura do sambista ao piano, com a coroa na cabeça. O samba A Medida do Senhor do Bonfim (1928-1929) de relativo êxito, era anunciada como ‘sucesso mundial’. Quem fala de mim tem paixão carrega a designação ‘samba maioral’. Na edição de Jura (A Guitarra de prata), de 1929, Sinhô é chamado ‘O Rhapsodo Nacional’ e lá está o slogan: — o maior sucesso do mundo.

Sob a influência de tanto sucesso e de tanta promoção, por vezes excessiva, com o seu nome no cartaz e no programa dos teatros, conhecido de todos, cantado nos salões e assobiado nas ruas, Sinhô tinha que ser apaixonadamente vaidoso.

É ainda Francisco Guimarães quem informa dele ter recebido a resposta a seguir quando lhe deu parabéns pelo êxito do samba A Favela vai abaixo:

— Meu Tio Guima, eu escrevi esse samba em represália aos muitos que há por aí dizendo mal da Favela, que eu tanto adoro. Ela vai abaixo e eu lhe dou o meu adeus, deixo gravada a minha saudade e a minha gratidão àquela escola onde eu tirei o curso de malandragem.


(1) "Minha Paixão" (1923). (2) Estrofe repetida mais tarde (1928) no samba "Tesourinha".


Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.

Nosso Sinhô do Samba - Parte 5

Arquivos Almirante (Museu da Imagem e do Som)

Em grande parte das suas composições, Sinhô procurou fixar na pauta musical um fato, um acontecimento banal ou importante, um tipo da cidade. Foi o cronista melódico do Rio na década em que se viu vitorioso e se tomou figura marcante da então metrópole, para onde convergia tudo que havia de mais expressivo na vida nacional.

Sinhô contava amigos nas altas rodas. Desfrutava da intimidade de alguns figurões da época. E como todo bom carioca, deveria ser também político, isto é, ter as suas paixões e entusiasmos por nomes e vultos destacados do momento.

Uma das suas primeiras produções e das que obtiveram maior êxito foi o samba Fala meu louro, lançado para o Carnaval de 1920. Nos versos pitorescos o sambista alfineta Rui Barbosa. Depois da memorável campanha presidencial em que Epitácio Pessoa o derrotara, Rui discretamente se afastara da liça e se recolhera a justificado e repousante mutismo. Homem de tais proporções não poderia sair do cartaz.

Rui era o comentário de todos os dias, a notícia permanente, a caricatura infalível nas admiráveis revistas de sátira política do tempo. Por isso mesmo o ousado compositor o interpela graciosamente no seu grande samba, que logo se espalhou por todo o Brasil. É o Fala meu louro, também conhecido como A Bahia não dá mais coco, Papagaio louro e Quem é bom já nasce feito:

A Bahia não dá mais coco
para botar na tapioca
pra fazer o bom mingau
para embrulhar o carioca.

Papagaio louro
Do bico dourado
Tu falavas tanto
Qual a razão que vives calado?

Não tenhas medo
Coco de respeito
Quem quer se fazer não pode
Quem é bom já nasce feito.
(1)

A sátira feliz adocicava-se como o bom mingau com a nota estimulante e consoladora ao eminente derrotado. A expressão “coco de respeito” não era somente pitoresca, mas enaltecedora, como também o era o encaixe oportuno do dito popular:

Quem quer se fazer não pode
Quem é bom já nasce feito.


Com esse samba, Sinhô alargaria o caminho da sátira que serviria ao desfile de grande parte das cantigas populares do Rio. Mas a sua inclinação pelo comentário político ainda lhe criaria casos e ocasionaria aborrecimentos.

Com a marcha Fala baixo, Sinhô, embora disfarçadamente, faz alusões à política. A começar pelo título que é uma advertência sensata ante a censura policial da época. E nos versos as invocações a uma rolinha complicariam tudo, pois a palavra antes encontradiça na música popular tornara-se proibida. (2)

Quero-te ouvir cantar
Vem cá, rolinha, vem cá
Vem para nos salvar
Vem cá, rolinha, vem cá


O estribilhista emérito, conhecedor atilado do gosto popular, conseguiu notável êxito com essa marcha, (3) lançada ruidosamente nos festejos da Penha, em outubro de 1921. Mas nem tudo seriam glórias, e Sinhô foi depois procurado pela polícia e teve que se refugiar na casa de sua mãe, D. Graciliana, então moradora na Rua do Engenho de Dentro, 95.

Na história musical do compositor ocorreria fato mais sensacional. O seu samba Macumba (Gegê), lançado em 1922, seria interceptado pelo Estado Novo, de execranda memória, quase vinte anos mais tarde, porque nele se continha a palavra Gegê, de origem africana, e já então apelido popular e carinhoso do ditador Getúlio Vargas. O disparate era maior porque nada havia de ofensivo nos versos simples do compositor falecido em 1930, e considerado subversivo post-mortem:

Ai Gegê
Meu encanto
Eu só tinha medo
Se não tivesse um bom santo.


As cautelas policiais estadonovistas preferiram modificar o sambinha que ficara. E a palavra desrespeitosa — Gegê — foi substituída nas emissões radiofônicas por Ieiê ou meu bem...

O samba Fala meu louro igualmente gerou incidente policial-militar. Na Bahia, segundo nota publicada na Revista da Semana, em 29 de maio de 1920, numa festividade pública em Salvador, estudantes solicitaram à banda de música do 19º Batalhão de Caçadores que executasse o samba popularíssimo. Um tenente se julgou agravado e com várias praças reagiu à insolência. Mas, ao que parece, não houve mortos nem feridos.

Sinhô era um registrador sonoro dos acontecimentos que agitavam a sua cidade, o Rio da década de 20, por ele vivida tão intensamente. A capital federal naqueles anos contava pouco mais de um milhão de habitantes.

Em 1921 e até começos de 1922, torna-se famoso na crônica policial um bandido que era o terror do morro da Favela, alcunhado de Sete Coroas. Parece que o apelido se originara de um roubo que ao início da sua vida de marginal fizera de algumas coroas de um túmulo! Depois outras ocorrências e crimes lhe aumentaram o sinistro cartaz e o celerado tanto era temido quanto popular. Sinhô que já encaixara Rui no samba, aproveita a fama de Sete Coroas, de quem era amigo, e lança o samba perfil do criminoso. Obedecia assim ao impulso que o movia de perpetuar o fato na pauta musical:

É noite escura
Iaiá acende a vela
Sete Coroas
Bam-bam-bam lá da Favela.

E a polícia
Já tonteou
Sete Coroas
Meia dúzia já matou.

E o homenzinho
É perigoso
Sete Coroas
Nasceu no Barroso.


Sinhô deveria ter pretendido apenas aumentar a fama do valente, numa exaltação da sua coragem. Mas, como bem observou Almirante, ao invés de glorificar o salteador, tornou-o mais temido, aumentando o terror da sua figura e das suas façanhas.

Consta que Sete Coroas certa vez figurou num bloco carnavalesco organizado pelo sambista. A admiração deste seria natural posto que perigosa homenagem ao valente. O mesmo fascínio que os cangaceiros famosos exerciam junto a rapsodos nordestinos que lhes exaltavam feitos, aventuras, lutas e perversidades, nos romancetes rimados. Essa glorificação do valente seja ele um salteador ou um herói, é uma constante nos poetas e artistas do povo.

A fixação do fato ou da notícia na solfa é aspecto a realçar na produção de Sinhô. Seria ele nos dias de agora um compositor participante no melhor sentido da palavra, um tanto baratinada. Seus sambas e marchas não davam somente títulos às revistas teatrais; serviam como legendas de caricaturas famosas. J. Carlos estampou na Careta uma caricatura de Rui vociferando, enquanto uma velhota que representa a Convenção lhe solfeja:

Fala, fala, fala
meu bem
Eu não digo nada a ninguém.


Eram os versos primeiros do samba Confessa meu bem, grande êxito de Sinhô no Carnaval de 1919.

Qualquer acontecimento, incidente trivial no cotidiano da cidade servia ao compositor para o registro melodioso. De 1919 é o samba carnavalesco Tirando o retrato, a que não faltava o subtítulo — Nascimento, oia ele — no qual parece comentar algum fato ocorrido talvez na ladeira do Barroso:

Nascimento, oia ele
Que qué me dá
Por causa de um retrato
Que na ladeira não quis tirá.


Modas e costumes não escaparam à glosa musical de Sinhô No Carnaval de 1924 satirizava a moda de cabelo feminino aparado à inglesa, no samba Já-já:

O tal cabelinho à inglesa
Eu mandava raspar já-já
Depois lixava a cabeça
Até ela gritar ‘chegá!’


Embora fosse mais da música que do verso, temos que destacar no compositor a identificação permanente com o povo, a sua facilidade de transmitir-se através de expressões pitorescas que inventava ou de que se apropriava, ajustando-as magistralmente nas melodias nem sempre totalmente originais. Por vezes é esquisito na sua temática. Quase hermético para os de hoje. É que arrumava no verso e na pauta não somente queixas e recriminações como também as suas mágoas e alegrias, os seus amores e frustrações e, sobretudo os fatos banais e até o anedótico nem sempre publicável. Tal como no Caneca de couro (1925), no qual o título se entende picarescamente como o sexo da mulher:

É modo agora quando ferram o namoro
Beberem água na tal caneca de couro.

História antiga que está em moda
É raro aquele que não dá uma mão na roda.

Quem provoca e gosta fica doido e vira lobo
Fica maluco faz papéis até de bobo.


Em 1926 noutro samba — Pega-rapaz — volta a referir-se à moda de então:

Ó menina
Que moda é essa de seu vestido
Oi!
Curto na frente, comprido atrás
Isto é moda de pegar rapaz.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ó menina
Que moda é essa de seu cabelo
Oi!
Curto na frente, raspado atrás
Isto é moda de pegar rapaz.


A Festa da Penha, campo em que venceu muitas batalhas, não poderia ser omitida no repertório de Sinhô. De 1926 é o seu maxixe Viva a Penha!:

E viva a Penha, e viva a Penha
De amores estou farto
Quem tiver dinheiro venha.

Isto é promessa
Que fiz à Santa
Pois o dinheiro
Tudo suplanta.


No mesmo ano lançaria o samba Corta-saia, em cujos versos se refere a vários acontecimentos ou motivos. Além de envolver uma bicharada, alude à música de pretos (provocaçãozinha). E no estribilho mais uma vez se reafirma na junção de frases populares admiravelmente agrupadas, fazendo sentido. Também aproveita o dito da época: É lá!:

É lá! É lá!
Que o gato arranha a gente
Tem serpente, cobra macho
Tem até bicho demente.

Se a moda pega
Do corta-saia
Acerta o passo
Cai no mangue
E sai da raia.

É lá! É lá!
Que o mestre é um macaco
Dança o urso e o elefante
Enquanto o burro cose o saco.

É lá! É lá!
Que tocam três tercetos
Deixa de haver função
Se o conjunto só der pretos.

É lá! É lá!
Que a zebra faz vergonha
Mal começa a trabalhar
Põe-se aos beijos com a cegonha.


Quando o urbanista Alfred Agache veio ao Rio, a convite do prefeito Prado Júnior, para levantar o plano da cidade, falou-se muito na demolição do morro da Favela. Estabeleceu-se o pânico entre os moradores do celebérrimo local. Sinhô correu em defesa da sua gente e compôs o belíssimo samba A Favela vai abaixo (1927):

Minha cabrocha, a Favela vai abaixo
Quanta saudade tu terás deste torrão
Da casinha pequenina de madeira
Que nos enche de carinho o coração.

Que saudades ao nos lembrarmos das promessas
Que fizemos constantemente na capela
Para que Deus nunca deixe de olhar
Por nós da malandragem e pelo morro da Favela.

Vê agora a ingratidão da humanidade
O poder da flor sumítica, amarela,
Que seu brilho vive lá pela cidade
Impondo o desabrigo ao nosso povo da Favela.


Luís Peixoto, que foi amigo dileto de Sinhô, lembra que segundo versão corrente, talvez espalhada pelo próprio sambista, este vendo cada vez mais forte a ameaça da derrubada do morro, resolveu ele mesmo se fazer intérprete dos moradores e valendo-se do seu prestígio popular foi à presença de um ministro de Estado a quem pediu para interceder junto ao prefeito, no sentido de não efetivar a demolição. O ministro gracejando com o compositor pediu-lhe para formular o pedido em samba. Sinhô aproveitou imediatamente a deixa e cantou baixinho A Favela vai abaixo, ainda não bastante divulgado. O ministro sorridente e algo emocionado prometeu interferir. E quem sabe se não o fez? Porque o morro lá ficou.

O último samba que compôs à véspera da morte, estranhamente extraviado, era O Homem da injeção, que focalizava recente caso policial em que estivera envolvido o capitalista Denizot. Um homem aparecera e em plena rua aplicara injeções num transeunte a quem seguira. O fato merecera abundantes registros dos jornais. Sinhô passou a sua última noite quase toda em claro compondo o samba. Teria projetado a vinda ao centro da cidade, na tarde em que morreu na barca, trazendo no bolso o seu último trabalho, infelizmente desaparecido do seu paletó. Seria o derradeiro comentário do pitoresco cronista musical do Rio.



(1) Fileto Moura, que foi íntimo de Sinhô, acha que o samba foi inspirado num velho papagaio que o compositor tinha em casa. Embora a honestidade do informante, nunca me pareceu fundada a versão, que chega a ser ingênua. Os demais versos da letra são claros, principalmente a última estrofe. (2) Rolinha era o apelido injurioso dado a Artur Bernardes por jornais do Rio. (3) Marcha e não samba como por equívoco tem sido citada.


Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.