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sexta-feira, 7 de outubro de 2022

João Gilberto: Desafinado

João Gilberto
Soando como a coisa mais estranha que aparecera até então na música brasileira, a primeira gravação de “Desafinado” (Odeon, 14426-b), lançada em fevereiro de 59, já mostrava tudo o que a bossa nova oferecia de inovador e revolucionário: o canto intimista, a letra sintética, despojada, o emprego de acordes alterados e, sobretudo, um extraordinário jogo rítmico entre o violão, a bateria e a voz do cantor.

Responsável por este jogo rítmico, seu interprete, João Gilberto, assumia assim de imediato um papel destacado no trio — completado pelo compositor Tom Jobim e o poeta Vinícius de Moraes que, criando a bossa nova, alteraria de forma irreversível o curso de nossa música popular. Apenas com Tom e Vinicius teríamos certamente uma música moderna, sofisticada, renovadora, mas que não seria o que se chamou bossa nova.

A melodia de “Desafinado” é bastante “torta” (“era mais ainda na concepção original. O João é que alterou alguma coisa na hora de gravar”, informa Tom Jobim) em razão principalmente de uma engenhosa alteração no quinto e sexto graus da escala na frase inicial (“Se você disser que eu desafino, amor”) que recai sobre as sílabas “de” (de “de-sa-fino”), “a” e “mor” (de “a-mor”).

Ao sustenizar a dominante e bemolizar a super-dominante, foram produzidos intervalos melódicos inusitados para os padrões da música brasileira da época, a ponto de dificultar a interpretação de alguns cantores menos dotados. Localizando essa alteração sobre a palavra “desafino”, os autores criaram a impressão de que o cantor semitonava, ou seja desafinava, o que levou muita gente a achar João Gilberto um cantor desafinado. Ao mesmo tempo, a batida deslocada do violão e o contratempo da percussão confundiram os músicos, provocando estupefação geral.

Tanta novidade apresentada numa única composição a levaria inevitavelmente ao sucesso, que se estenderia ao exterior. Nos Estados Unidos, por exemplo, o single de “Desafinado”, com Stan Getz e Charlie Byrd, gravado em 1962, ultrapassou a marca de um milhão de cópias e recebeu o prêmio Grammy de melhor performance de jazz. O fonograma foi extraído do álbum Jazz samba, que permaneceu setenta semanas no hit-parade americano e também ultrapassou a marca de um milhão de cópias. Esta gravação é considerada o marco inicial da bossa nova nos Estados Unidos. (A Canção no Tempo - Vol.2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

Desafinado (samba bossa, 1959) - Newton Mendonça e Tom Jobim - Interpretação: João Gilberto

LP Chega de Saudade / Título da música: Desafinado / Tom Jobim (Compositor) / Newton Mendonça (Compositor) / João Gilberto (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1959 / Nº Álbum MOFB 3073 / Lado B / Faixa 1 / Gênero musical: Samba.

Tom: F7+
 F7+                          G7/5-
Se você disser que eu desafino amor
Gm7                  Bb/C         Cm7      D7/9-
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Gm7     A7/5+       D7+           D7/9-
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
G7                       Bb/C     Gb7/13
Eu possuo apenas o que Deus me deu
 F7+                      G7/5-
Se você insiste em classificar
Gm7            Bb/C          Cm7     D7/9-
Meu comportamento de anti-musical
Gm7            A7/5+        F6/9    E7/9+
Eu mesmo mentindo devo argumentar
A7+           G#7/5+       Em/G      D/E
Que isto é bossa-nova, isto é muito natural
   A7+          Bbº        Bm7/4         E7
O que você não sabe nem sequer pressente
A7+       Am7          Bm7/4      E7
É que os desafinados também têm um coração

C7+             C#º         Dm7/4
Fotografei você na minha Roleiflex
G7    Gm7           D7/9-        G7  Gb7/13
Revelou-se a sua enorme ingratidão
F7+                    G7/5-
Só não poderá falar assim do meu amor
Gm7         Bb/C         Cm7         D7/9-
Este é o maior  que você pode encontrar
Gm7           Bbm7         Am7         G7
Você com sua música esqueceu o principal
G7
Que no peito dos desafinados
Bbm7         Eb7/9
No fundo do peito bate calado
G7             Gb7/13
Que no peito dos desafinados
F6/9    Bbm6 F6/9
Também bate um coração

Isaura Garcia: De Conversa em Conversa

Isaura Garcia

Tal como "Saia do caminho", lançado em 1946, "De Conversa em Conversa" explora o tema da separação amorosa. Só que de uma maneira diversa, pois, enquanto no samba anterior a protagonista aceita o fato resignadamente, aqui reage de forma decidida, procurando minimizar o trauma da separação: "Vivendo dessa maneira / continuar é besteira / não adianta não / o que passou é poeira / deixa de asneira / que eu não sou limão / não sou limão, não, não...".

O curioso é que em "De Conversa em Conversa" o autor da letra é Haroldo Barbosa, irmão de Evaldo Rui, letrista de "Saia do Caminho", o que de certa maneira expõe as diferenças de estilo dos dois, sendo o primeiro irônico, prático, realista, em contraste com o segundo, mais chegado ao romantismo.

Lançado no rádio por Lúcio Alves (autor da melodia, quando tinha 16 anos) e os Namorados da Lua, com o título de "Não Sou Limão", o samba despertou a atenção de Isaura Garcia, que o gravou acompanhada pelo citado conjunto.

De conversa em conversa (samba, 1947) - Haroldo Barbosa e Lúcio Alves

Disco 78 rpm / Título da música: De conversa em conversa / Autoria: Barbosa, Haroldo (Compositor) / Alves, Lúcio, 1927-1993 (Compositor) / Isaura Garcia (Intérprete) / Os Namorados da Lua (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: RCA Victor, 1946 / Nº Álbum 800497 / Lado B / Lançamento: 1947 / Gênero musical: Samba

F7+
Oi de conversa em conversa
  Am7            G#m7  Gm7   D7  Gm7
Você vai arranjando um meio de brigar
                                 G#º
Oi de palavra em palavra você está querendo
   F    F7+
É nos separar
               Am7                 G#m7
Parece até que o destino uniu-se com você
             Gm7
Só pra me maltratar
                                   C7/9
Pois cada dia que passa é mais uma tormenta
              F7+
Que eu deixei ficar
Nosso viver não adianta
    Am7     G#m7    Gm7  D7 Gm7
É melhor juntarmos nossos trapos
Arrume tudo que é seu
      E7                A7    F7
Que vou separando os meus farrapos
               Bb7+                 Bbm7
Vivendo dessa maneira continuar é besteira
             Am7      D7
Não adianta não, não, não
                Gm7
O que passou é poeira
         C7/9                  F7+
Deixa de asneira que eu não sou limão
F#7+              F7+
Não sou limão, eu não!


Fontes: Instituto Moreira Salles - Acervo musical; A Canção no Tempo - Volume 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Sílvio Caldas: Da Cor do Pecado

Lançado por Sílvio Caldas na melhor fase de sua carreira, "Da Cor do Pecado" é um grande samba, o melhor do reduzido repertório do compositor Bororó (Alberto de Castro Simoens da Silva).

Brejeiro, malicioso, possui uma das letras mais sensuais de nossa música popular: "Este corpo moreno / cheiroso, gostoso/ que você tem / é um corpo delgado / da cor do pecado / que faz tão bem...".

Segundo o autor, "a musa desses versos chamava-se Felicidade, uma mulher de vida pregressa pouco recomendável", que trabalhava em frente ao Tribunal de Justiça e lhe foi apresentada por Jaime Távora, oficial de gabinete do ministro José Américo. Iniciou-se assim um romance de vários anos em que Bororó foi responsável pela mudança de vida da moça. Mais tarde ela se casaria com um médico, tendo morrido ainda jovem em conseqüência de uma gripe mal curada.

De melodia e harmonia elaboradas, acima da média dos sambas da época, "Da Cor do Pecado" tem seu aspecto mais interessante nas modulações da primeira para a segunda parte e na volta desta para a primeira. Ainda quanto à melodia, tal como se repetiria em "Curare", a frase final - "eu não sei bem porquê / só sinto na vida o que vem de você" - é um primor de preparação para o acorde de dominante que conduz ao tom da primeira parte.

"Da Cor do Pecado" permanece como um clássico, tendo regravações de artistas como Elis Regina, Nara Leão, João Gilberto, Ney Matogrosso e os instrumentistas Jacó e Luís Bonfá.

Da cor do pecado (samba, 1939) - Bororó

Disco 78 rpm / Título da música: Da cor do pecado / Autoria: Bororó, 1898-1986 (Compositor) / Caldas, Silvio (Intérprete) / Regional (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: RCA Victor, 06/07/1939 / Nº Álbum 34485 / Lado B / Gênero musical: Samba


D7+ B7/-9    Em7     A7        Gbm7
Este corpo moreno, cheiroso e gostoso
F0    Em7    A7/6
Que você  tem . . . .
D7+    E7     A/E     Gb7       Bm7
É um corpo delgado da cor do pecado
E7      Em7     A7/6
Que faz tão bem . . . .

D7+  B7/-9     Em7       A7   Gbm7
Este beijo molhado escandalizado
F0       Em7    A7/6
Que você me deu . . . .
D7         G               F0       Gbm7
Tem sabor diferente que a boca da gente
  Em7        D
Jamais esqueceu . . . .

 Bm7       Bbm7      Am7                    D7
Quando você me responde umas coisas sem graça
                  G
A vergonha se esconde
          Bm7/-5      E7      Am7
Porque se revela a maldade da raça
               D7                  G7+
Este cheiro de mato tem cheiro de fato
          Bm7          Bbm7      Am7
Saudade tristeza essa simples beleza
       B7                  Em7    G7
Teu corpo moreno,  morena enlouquece
 C7+              Bm7
Eu não sei bem porque
Eb7        Ab           D7     G      A7
Só sinto na vida o que vem de você . . . .


Fontes: Instituto Moreira Salles - Acervo Musical; A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Orlando Silva: Curare

"Curare" é o segundo sucesso de Alberto de Castro Simoens da Silva, o afamado boêmio carioca Bororó, violonista e compositor nas horas vagas, cuja obra praticamente se resume a duas músicas, ambas clássicos.

Bororó foi o padrinho da carreira artística de Orlando Silva, que em 1939 ficou enciumado por não ter gravado "Da cor do pecado", o outro clássico, lançado por Sílvio Caldas. Então o compositor deu-lhe "Curare", como compensação.

Além da letra brejeira, a construção harmônica da segunda parte, especialmente a frase final, uma seqüência avançada para época, tornam este samba atraente para intérpretes, como João Gilberto, interessados em músicas de concepção mais elaborada.

Curare (samba, 1940) - Bororó

Disco 78 rpm / Título: Curare / Autoria: Bororó, 1898-1986 (Compositor) / Silva, Orlando (Intérprete) / Orquestra (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Victor, 1940 / Nº Álbum 34667 / Lado A / Gênero: Samba choro

(A7)          D
Você tem buniteza,
Fo       Em    A7         Dm7   A7
E a natureza, foi quem agiu...
                   D
Com estes óio de índia,
  E7        A                 E7       A7    E7
Curare no corpo,  que é bem Brasil.

     A7      D
Tu é toda Bahia
     Fo         Em
É a fulô do mucambo,
    A7          Gb6  B7
Da gente de cô
                 Em      A7
Faz do amô confusão,
         D      B7        E7    A7
Nesta misturação bem banzeira,
     D    G7       Gb7         Bm    A7
Insoneira, que tem raça e tradição

                       D
Quebra, machuca minha dô
         A7             D
Nêga, neguinha tudo-tudinho
         A7
Meu amôzinho, com esta boquinha
       D
Vermelhinha, rasgadinha
 Gb      Db7          Gb       A7
Qui tem veneno, cumo que...

                     D                   
Conta tristeza e alegria
         A7                     D    B7
Pru seu bem, que tudo vive a dizê
       E7   A7   D    G       D
Que você é diferente desta gente
     A7       D
Que finge querê !


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.