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terça-feira, 27 de setembro de 2022

Nara Leão: Marcha de Quarta-Feira de Cinzas

Composta antes de 1964, a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas” é assim uma espécie de protesto premonitório contra a realidade imposta pela ditadura militar. Pertence àquela fase inicial do CPC em que Carlos Lyra, como já foi dito, incorpora à sua obra uma temática político-nacionalista, tendo sido feita no mesmo dia em que ele e Vinícius haviam concluído o “Hino da UNE” (“De pé a jovem guarda / a classe estudantil / sempre na vanguarda / trabalha pelo Brasil...”).

Mas, com sua mensagem disfarçada no lirismo melancólico de uma marcha-rancho, a composição pode ser considerada um belo exemplar do gênero música de protesto: “Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais brincando feliz / e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou...” A passagem com o acorde de sétima maior de dó antecedendo a frase “e no entanto é preciso cantar”, após a pungente primeira parte, cria um momento mágico, na medida em que envolve a platéia inteira e a faz cantar suavemente embalada por um simples violão.

Um clássico de seu tempo, a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas” é uma daquelas raras canções capazes de encerrar com elevada dose de emoção um espetáculo musical. Embora consagrada pela voz de Nara Leão, teve sua gravação inicial por Jorge Goulart em fevereiro de 63 (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Marcha de Quarta-feira de Cinzas (marcha-rancho, 1963) - Carlos Lyra e Vinícius de Moraes - Interpretação: Nara Leão.

LP Nara / Título da música: Marcha da Quarta-Feira de Cinzas / Carlos Lyra (Compositor) / Vinícius de Moraes (Compositor) / Nara Leão (Intérprete) / Gravadora: Elenco / Ano: 1964 / Álbum: ME-10 / Lado A / Faixa 1 / Gênero musical: Marcha-rancho.

INTROD: Gm  D#5-/6  D7  Gm  D#5-/6  D7  

Gm7            D#5-/6  D7
Acabou nosso carnaval 
        Gm7          D#5-/6   
Ninguém ouve cantar canções
  D7          Bm7             Bm5-/7
Ninguém passa mais brincando feliz
E7       A7/13
E nos corações 
           Am7(b5) D7(b9)         Gm7  Am4/7 D7(#9)
Saudades e cinzas  foi   o que restou

      Gm7           D#5-/6
Pelas ruas o que se vê
 D7     Gm7             D#5-/6
É uma gente que nem se vê
 D7          Bm7                Bm5-/7
Que nem se sorri, se beija e se abraça
 E7      A7/13
E sai caminhando
              Am7(b5) D7(b9)       Gm7  Dm7 G#°(b13)
Dançando e cantando   cantigas de amor

C7M                   Cm6
    E no entanto é preciso cantar
G/B                   A7        Em7
    Mais que nunca é preciso cantar
A7/13      A7(#5)      A7                Am7(b5)  D#5-/6   D7
      É preci....so cantar e alegrar a cida.......de

      Gm7              D#5-/6
A tristeza que a gente tem
         Gm7           D#5-/6
Qualquer dia vai se acabar
  D7       Bm7                Bm5-/7
Todos vão sorrir, voltou a esperança
 E7            A7/13
É o povo que dança
            Am7(b5)  D7(b9)      Gm7  Dm7 G#°(b13)
Contente da vida,    feliz  a cantar

C7M                   Cm6
    Porque são tantas coisas azuis
G/B                     Em7
    E há tão grandes promessas de luz
A7/13       A7(#5)      A7
      Tanto amor  para amar
                  Am7(b5)  D7
De que agente nem sa.......be

        Gm7           D#5-/6 D7  
Quem me dera viver pra ver
      Gm7             D#5-/6
E brincar outros carnavais
 D7          Bm7          Bm5-/7
Com a beleza dos velhos carnavais
       E7        A7/13
Que marchas tão lindas
            Am7(b5)     D7(b9)    Gm7
E o povo cantando   seu canto  de paz
Am7(b5)     D7(b9)   Gm7
        Seu canto de paz

João Gilberto: Lobo Bobo

Quase uma vinheta, ocupando pouco mais de um minuto do lado A do elepê Chega de saudade, “Lobo bobo” foi uma das primeiras composições da dupla Carlos Lyra-Ronaldo Bôscoli. Feita meio de brincadeira, a partir do tema de “O Gordo e o Magro” (Stan Laurel & Oliver Hardy), funciona como uma espécie de versão musical alegre, espirituosa e temperada por uma boa dose de malícia, da fábula “Chapeuzinho Vermelho”: “Era uma vez um lobo mau / que resolveu jantar alguém / estava sem vintém / mas arriscou / e logo se estrepou...”.

Inusitada para a época, esta letra causou reações negativas como as de Sérgio Porto e Lúcio Rangel (“é um samba armado em burrice”) ou positivas como a de Ary Barroso, que achava “inteligentes” as letras da bossa nova. Já a censura implicou com a utilização do verbo “comer” no segundo verso (“que resolveu comer alguém”), obrigando os autores a trocá-lo por “jantar”.

Carlos Lyra - 1960
Na verdade, “Lobo Bobo” seria uma auto-zombaria de Ronaldo Bôscoli, sendo “o lobo” ele próprio e “Chapeuzinho” Nara Leão, sua namorada na época. Mas quem gostou mesmo do sambinha foram os cantores João Gilberto e Sylvia Telles, que o gravaram quase simultaneamente, seguidos de perto pela então novata Alaíde Costa. (A Canção no Tempo - Vol.2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

Lobo bobo (samba bossa, 1959) - Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli - Intérprete: João Gilberto

LP Chega de Saudade / Título da música: Lobo bobo / Lyra, Carlos (Compositor) / Bôscoli, Ronaldo (Compositor) / João Gilberto (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1959 / Nº Álbum MOFB 3073 / Lado A / Faixa 2 / Gênero musical: Samba.

E7+             Fº
Era uma vez um lobo mau 
        F#m7     B6/7
Que resolveu jantar alguém 
F#m7        B6/7           E7
Estava sem vintém , mas arriscou 
   Fº F#7/9    B5+/7
E logo se estrepou
   E7+             Fº
Um Chapeuzinho de maiô 
F#m7            B6/7
Ouviu buzina e não parou 
    F#m7        B7     Bm5-/7       C#5+/7
Mas Lobo Mau insiste e faz cara de triste 
       F#m7       Gº         Em7       C#5+/7
Mas Chapeuzinho ouviu os conselhos da vovó 
 F#m7              B7           Am3b         E6/9
Dizer que não pra lobo, que com lobo não sai só 
Bm7 E7/9 A7+ A6 Bm7 E7/9   A7+      A6
Lobo canta, pede, promete tudo até amor 
          C#m6b D#7 G#m7   C#m7       F#7/9     A/B  B7/9-
E diz que fraco de lobo é ver um Chapeuzinho de maiô 
        E7+        Fº
Mas Chapeuzinho percebeu 
    F#m7           B6/7
Que Lobo Mau se derreteu 
     F#m7         B7         Bm5-/7       C#5+/7
Pra ver você que lobo também faz papel de bobo 
    F#m7        Gº      G#m7            C#5+/7
Só posso lhes dizer, Chapeuzinho agora traz 
    F#m7      B7            Am3b        E6/9
Um lobo na coleira que não janta nunca mais 

Lobo bobo, uuuuh!

Carlos Lyra: Influência do Jazz

Em setembro de 1961, Carlos Lyra fundou, juntamente com Oduvaldo Viana Filho, Ferreira Gullar e outros companheiros, o CPC (Centro Popular de Cultura) da União Nacional dos Estudantes. Na ocasião, o compositor começava a considerar a bossa nova apenas uma forma musical moderninha de repetir as mesmas coisas românticas de sempre.

Isso refletiu-se em sua produção que, sem afastar-se de todo do romantismo, passou a tomar contornos nacionalistas, a partir de composições como “Mister Golden”, “Canção do Subdesenvolvido” e este surpreendente “Influência do Jazz”, que questionava tendências observadas em sambas da época (“Pobre samba meu / foi se misturando, se modernizando / e se perdeu...”). Bem sincopado, o samba mesclava tradição e modernidade, lembrando sua melodia, propositalmente, canções americanas como “Indian Love Call”, da opereta “Rose-Marie” e “You Were Meant for Me”, do filme “Cantando na Chuva”.

“Influência do Jazz” foi lançado pelo Tamba Trio (Luís Eça, Hélcio Milito e Bebeto) num programa de Zé Trindade, transmitido aos domingos pela TV Rio. O motivo da presença do Tamba no programa cômico era que seus componentes estavam iniciando carreira e o pessoal da televisão arranjara aquela brecha no horário nobre para apresentá-los, embora o conjunto e a música nada tivessem a ver com o humor do Zé. Em seguida, “Influência do Jazz” tornou se sucesso, sendo até executado duas vezes no famoso show de bossa nova no Carnegie Hall, por Lira e o Quarteto de Oscar Castro Neves (A Canção no Tempo - Vol. 2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

Influência do Jazz (samba, 1962) - Carlos Lyra

LP Depois do Carnaval - O Sambalanço de Carlos Lyra / Título da música: Influência do jazz / Carlos Lyra (Compositor) / Carlos Lyra (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1962 / Álbum: P 630.492 L / Lado A / Faixa 2 / Gênero musical: Samba.


Em7   A7(b9) D7M  B7(b9)
Pobre samba  meu
            Em7             A7/9           D7M  D6/9
Foi se misturando se modernizando, e se perdeu
        Am7                 D7(b9)
E o rebolado cadê?, não tem mais
              G#m7(b5)               Gm6
Cadê o tal gingado    que mexe com a gente
                D6/F#   F°       Em7
Coitado do meu samba  mudou de repente 
     A7/13    D6/9    B7(b9)
Influência do jazz

Em7      A7(b9)     D7M    B7(b9)
   Quase que      morreu
           Em7                  A7/9            D7M
E acaba morrendo, está quase morrendo, não percebeu
D6/9               Am7                  D7(b9)
     Que o samba balança de um lado pro outro
             G#m7(b5)                Gm6
O jazz é diferente,   pra frente pra trás
               D6/F#   F°       Em7
E o samba meio morto ficou meio torto 
     A7/13    D6/9
Influência do jazz

G#m7/11  G7(#11)    F#m7   B7/9  F#m7      B7/9
                 No afro-cubano, vai complicando
F#m7     B7/9  F#m7  B7/9
Vai pelo cano, vai
G#m7     C#7/9  G#m7       C#7/9
Vai entortando, vai sem descanso
F#m7  Fm7   Em7         A7(b9)
Vai,  sai,  cai... no balanço!

Em7   A7(b9) D7M  B7(b9)
Pobre samba  meu
             Em7            A7/9          D7M  D6/9
Volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu
               Am7               D7(b9)
Pra não ser um samba com notas demais
                 G#m7(b5)               Gm6
Não ser um samba torto   pra frente pra trás
                  D6/F#       F°       Em7 
Vai ter que se virar    pra poder se livrar
        A7/13    D6/9
Da influência do jazz

Rosana Toledo: Canção que Morre no Ar


Canção Que Morre No Ar (1960) - Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli - Intérprete: Rosana Toledo

LP A Voz Acariciante De Rosana / Título da música: Canção Que Morre No Ar / Carlos Lyra (Compositor) / Ronaldo Bôscoli (Compositor) / Rosana Toledo (Intérprete) / Gravadora: Odeon / Ano: 1960 / Nº Álbum: MOFB 3158 / Lado B / Faixa 2 / Gênero musical: Samba-canção.


Intr.:( D6 Em7 A7(b9) D6 Bm7 Fm7 
        Bb7/13 Eb7M Cm7 Bbm7 Eb7(b9) 
        Ab7/13 Ab7(b13) Abm7 Db7(b9) )

F#7M      F#6  Em7
Brinca no ar
   A7(b9)      D7M  F#m7/C# Bm7 A G#m7
Um resto de canção
   C#7(b9)      F#7M  F#6 Em7
Um rosto  tão sereno
    A7(b9)       D7M  Bm7 G#m7 C#7(b9)
Tão quieto de paixão

F#7M     F#6  Em7
Morre no ar
  A7(b9)        D7M   F#m7/C# Bm7 A G#m7
O sempre mesmo adeus
     C#7(b9)         F#7M   F#6
Meus olhos  são teus olhos

     G#m7 E7  A6  F#m7 Cm7
Para nós,     vem
   F7/13         Bb7M    Bb6
Um mundo sempre amor
                Gm   Gm(7M) Gm7
O pranto que desliza
   C7/4(9)        F7M  F6
No seio    de uma flor
      Em7   A7      D7M  F#m7/C# Bm7
Terra-luz,     anjo só
A     C#m7   F#7(b13)      Bm7   E7
Mil carícias          você tras
      Em7    A7/4(9)       D7M
Beijo manso,         luz e paz